aspirações

eu vou aqui e ali
tentando achar em toda parte
algo que possa chamar de inspiração,
algo que forme algo-de-arte.

vou fazer curso de design
pra projetar quinquilharias.
fotografar latas de lixo,
falar que é arte
e ganhar uma mixaria.

e vou fazendo rima pobre também,
visto que ninguém se importa.
até rimaria isso com "porta"
mas tô super sem saco.

enfim,
vou pra escola de belas artes
fazer obras (tralhas)
e ver se com elas
preencho o meu pensamento
(ou pelo menos meu apartamento).

[nem só de pão vive o homem, né?]


breath

oh!
how the memories brings tastes,
that brings smells,
that brings touches.

bringing sensations
to my body
to my bed
i carry
a tingling feeling
under my skin.

and under the covers
ten-thousand oceans
of memories.
a growing tide
of memory-trigged desire.

the images won't help
me sleep at night.


Juventude mtv (iê iê iê sou mais indie que você)

Encontrei recentemente um casal de ex-conhecidos. Encontrei não, veja bem: eu estava no ônibus maso-menos lotado, sentadinha e os vi entrando. Abaixei logo a cabeça, folheando meu exemplar de Jane Eyre (de Charlotte Brontë). "Evite o contato visual" é meu lema sempre. SEMPRE. Detesto esbarrar com "colegagens" do passado e da vida. Enfim, o rapaz - que estudou comigo - não me reconhece desde sempre. Cometi o erro uma vez de encontrá-lo numa festa e cutucá-lo e ele só fez cara de "hã?" e a namorada, de Blasé.

Ele tem cara de lerdo, desde sempre. Na nossa infância partilhada em sala de aula, ele dormia em todas as aulas e tirava zero nas provas. Pelo que me consta hoje em dia - o mundo é um ovo, então vários conhecidos também são conhecidos dele - ele adora beber o máximo possível e anda na coleira da namorida. A marida, como dizem na cena, faz o estilinho blasé: muito branca, meio pin-up nos acessórios e muito indie na magreza. porém, inegavelmente Tijucana na falta de sal e açúcar. Picolézinho de chuchu típico: gelado e sem gosto, porém metidinha a besta.

Enfim, pararam na minha frente, em pé, um ao lado do outro. Meus olhos estavam no Jane Eyre, óbvio, mas meus ouvid afiados. A aprendiz de Mari-moon,coitada, se acha a coisa mais preciosa do mundo. Fez questão de reparar no frizz do cabelo da menina à frente, no banho de kolene da outra e na gordura da moça que sentava com a filha e as sacolas de compras. Comparou essa gorda à uma amiga também gorda, falando que o Fred ou o Fudêncio (não sei qual era o nome dele, afinal toda essa geração só tem apelidos, esdrúxulos e/ou americanizados), atual namorado dela, agora na escola de belas artes em breve iria trocá-la com seus peitos caídos por uma menina bonitinha de skinny jeans, "estilo foxy-art-bitch". Juro que ela falava assim mesmo. "Whatever", ela dizia no final de cada frase. A condição de seu exterior cool e superior só permitia que ela pontuasse suas frases com palavras em inglês. Ainda com os olhos no meu livro, fiz cara de ¬¬.

E o menino concordava e retrucava, no seu estilinho too-cool-for-school pobre: camisa descolada da renner, cavanhaque, cabelo levemente desgrenhado. Ele só falava quando necessário, mas era concordando com a guria, se colocando no topo do mundo. Pobres coitados! Tão legais! Tão ricos, chiques e franceses! Esqueceram-se - pobrezitos! - que estavam naquele momento dentro do mesmo 456 junto dos outros reles mortais, indo da Avenida Suburbana para a Lapa, tomar uma cerveja em uma boite de baixa qualidade - de um subúrbio para um submundo - e não dentro da limosine com as amigas emergentes, tomando champagne à caminho do Hilton Hotel.

Eles se achavam, agora cutucando a menina que brincava com sua boneca maltrapilha. Faziam tiradas e comentários sarcásticos. Oh, que engraçados! Dentro do sitcom pessoal, da novelinha de suas vidinhas, roteiro esburacado e ô, tão irônico. Te juro que, quando levantei os olhos e os olhei pelo espelho da janela, as caras deles eram de quem ouviam as risadas gravadas da platéia.


so what's new?



sempre um novo invólucro
para disfarçar um conteúdo fraco

(quase 21 anos, moderninha, technocolor. faz doer os olhos.)


only the smart ones can see

all that is me

Basal Fury Viking
Salivary Big Funk
Fibula Gravy Inks
Barfly Auk Vising
Saga Blur Fink Ivy
Baking Visual Fry
Fakir Slaving Buy
A Fakirs Bug Vinyl
Gala Rib Funks Ivy
Avail By Frisk Gun


on day-dreaming all the time
( or: recognizing the necessity of working
[on a job, on art, etc] )


"keep your head atop of your shoulders",
to myself i always say!
yet, it's so hard to keep a promise,
when illusions fog the way.

eyes soaked in clouds, so good!
vision blurred with dreams
and pretty promises. how could
I dare to break this pleasure?

yet, the head! i must keep right!
there is no place for dreaming,
or for a confused sight!

(the advice?
don't sleep when life is passing by.
remember people who got lost in life.

as he once lost everything to me,
and cries broken and in sorrow,
i may lose everything to someone else
today because of the dreaming of tomorrow.)


'the road to hell is paved with good intentions'

os gestos grandiosos raramente vem livres de ego e significados obscuros. não generalizarei, claro, nem serei amarga dizendo que TODOS os gestos prestados até hoje, em toda história da humanidade por amantes e amigos e parentes, estavam carregados de egoísmo e satisfação doentia de um só indivíduo; mas grande parte deles estava.

vejo alguns dos grandes gestos como objeto de barganha. um presente caro, fora dos limites da realidade? compra do amor / da atenção. um gesto público, escancarado, escandaloso? mostra à sociedade da sua "bondade"/ aos outros que você pode, que está disposto (famosa vontade de aparecer).

"ele foi cafona e espalhafatoso, mas acredite, teve boa intenção..." me dizem. "de boas intenções o inferno está cheio, acredite", digo eu, como já disse meu pai nos tempos do ronca, quando eu era criança tola e o mundo era bonito e simples.

enfim, não acredito em outdoors e carros de som. não só pela imensa breguice (meu gosto pessoal, mas sabe-se lá...) mas também pela necessidade do remetente de se pôr acima do destinatário, de satisfazer sua carência individual explorando a carência do próximo, de remendar sua ineficácia nos campos amoroso/social comprando e humilhando o objeto de afeto.

fico então com meus pequenos gestos, íntimos, palavras bem ditas, meus bilhetes rasgados que guardo nos meus livros, na minha carteira. quinquilharias, bricabraques. fico com as pequenas coisas que me dizem e escrevem à parte do mundo que nos rodeia, com as coisas de pé de página e ao pé d'ouvido. lixo para uns, para mim são presentes inesperados, nunca mencionados, mimos, agrados e afagos.

e peço a atenção dos que me rodeiam aos pequenos gestos. vindos de mim, então, pessoa seca e esquálida - um sertão em vida - falam mais alto do que megafones em praças públicas.

ps. haha a ironia! olha lá, hein! não tenho segundas, nem "boas" intenções com esse escrito, ok? hahaha *rindo*


dica aos aspirantes dos tempos modernos

você me disse
que sua poesia era torta,
sem rima, sem métrica,
porque era poesia romântica.

de desafiadora,
de rebelde,
sua poesia não tinha nada!

ela só era,
(realmente)
bem ruim.

e você me disse que era distante,
solitário
e misterioso
porque era um herói byroniano.

mas de blasé,
de deslumbrante,
sua figura nada tem:

tu és apenas
(realmente)
antipático
e alcóolatra.


One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

---Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

-- Elizabeth Bishop

***

porque perdi minha paciência faz tempo. ha! ha! ha! *dedo de trocadilho*


-- mercedes --



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