I
shall hold him close,
shall kiss him tight.
shall kiss him close,
shall hold him tight.
shall hold him, kiss him
close, tight...

-- Mercedes | |

é sempre essa chuva. sempre. na minha cabeça.

-- Mercedes | |

we keep going to our doctors,
hiding behind therapies,
so we can all smile monday morning
and not think about killing
our neighbors.

behind suburban doors,
lives go on pretty useless.
the only difference between me,
drunk at the kids' pool party,
and your mom, up and down on pills,
is an idiotic death
by accidental drowning.

because, in terms of living,
i don't even know if we are alive,
dead
or just asleep.

-- Mercedes | |

festas enfadonhas

- não aceitas nem um pequeno aperitivo?
- não, não, muito obrigado.
- mas porque?
- ah... depois de tanto tempo de fome, sobrou-me apenas um imenso fastio...

-- Mercedes | |

do episódio "Failure to Communicate"

Stacy: "You're abrasive and annoying and come on way too strong, like... vindaloo curry. When you're crazy about curry, that's fine but no matter how much you love curry, you have too much of it, it takes the roof of your mouth off. And then you never want to see curry for a really, really long time but you wake up one day and you think... 'god I really miss curry'"

________________________

coitado... eu só quero ver o dr House feliz.

-- Mercedes | |

sempre igual

acordo todos os dias depois que todo mundo já saiu, lá pelo começo da tarde. acordo mesmo pelo sol que entra pela janela, iluminando a minha cama. esquenta muito esse sol de frente e, misturado aos meus sonhos perturbados, acordo todos os dias com suor em bicas. não faz diferença acordar cedo, na verdade, pois passo todos os dias trancado no meu quarto, me separando do resto da casa. não desejo encontrar ninguém. já me basta, uma vez por mês, encontrá-los para pagar o aluguel e a minha parte das despesas. minha mãe se sente culpada, eu bem sei, então às vezes nos sentamos para tomar café e comer bolo, como fazíamos em tempos melhores.

veja bem, meu pai estragou tudo. nunca aceitou filho escritor. "veja só, isso não é trabalho". não podia nunca calar a boca sobre trabalhar, sobre responsabilidade. eu queria ser livre, ele queria ser preso. 'o trabalho dignifica o homem' era o seu lema. merda de lema medíocre. pode parecer problema corriqueiro essa coisa de "não me dou bem com meu pai", até ser desculpa para falhas de caráter, mas é o que mais me aflige mesmo. mas enfim. me prendo no meu quarto pela minha necessidade de escrever. me levanto e olho a janela, numa rotina. repito mantras aleatórios, inventados sob a luz do sol. e me sento para escrever. a editora anda me pressionando muito - quer um escrito novo, algo de ouro como o último publicado. eles querem encomendas e toda semana chega um envelope, contendo uma carta e um cheque. são sempre reclamações em tom formal, dizendo que este será o último cheque, que meu contrato está por um fio, que os chefões querem um texto para a próxima edição, sem falta.

e eu dou de ombros e só olho pro meu retrato recortado de jornal do bukowski (aquele em que ele, barrigudo e beberrão, está abraçado com um travesti horroroso) e vejo se ele fala alguma coisa, mas ele não fala nada. só me inspira a tomar um banho e sair para sacar o cheque, parando em um bar escuro aqui ou ali e tomar um trago de conhaque, enquanto conto os trocados do meu bolso e calculo o quanto falta para uma passagem de trem. mas falta muito pra ir embora, então bebo o resto do dinheiro de novo e de novo e me levanto, me arrasto para a portaria de casa, aonde subo depois que eles dormem, para jantar.

-- Mercedes | |

[mom,
eu não causo seus erros e falhas.
não me culpe.]

-- Mercedes | |

blues on the sofa

a bebida e os cigarros já não resolviam mais. pelo contrário - aumentavam o vazio ali dentro, a ânsia. as festas eram todas um saco, os filmes e as músicas também. eventos sociais se resumiam a aborrecimentos gratuitos com a felicidade alheia, o resto era só o universo conspirando contra. às vezes as letras das canções não falavam sobre nada, nem aquela reprise do telecine queria dizer porra nenhuma - era só mais um besteirol enlatado americano - mas, ainda assim, tudo dizia algo. o povo falava que ele "procurava chifre em cabeça de cavalo", mas acho que é sempre assim para as pessoas cujas vidas são vazias: significados aleatórios são entendidos conforme lhes é mais conveniente.

enfim. ainda assim ele continuava bebendo e fumando. beber sempre tinha sido bom pra pensar e, na pior das hipóteses, para esquecer.

ele esperava seriamente acordar o seu espírito adormecido naquela viagem, esperava chacoalhar tudo que se encontrava parado em sua vida. fugir da cidade era fugir do tédio, do drama, da solidão. andava deprimido, era verdade, mas não era necessário falar. pegou o maço - os dedos já amarelos de nicotina - e acendeu mais um cigarro, descendo o último degrau do ônibus, no terminal rodoviário. a cidade parecia pequena mesmo, menor do que ele esperava e tinha aquela beleza interiorana, melancólica. era, porém, mais ou menos como imaginava, como havia sonhado, cheia de detalhes pequenos, como a linha do trem abandonada, com grama e poeira entre os trilhos. cacos de garrafas quebradas.

terminada sua divagação, amassou então a bituca com a ponta da bota e sentou-se no banco de concreto da rodoviária.

no outro extremo do banco estava sentado um cara, com duas malas, fone no ouvido. seja lá o que estivesse ouvindo, deveria ser algo bonito, porque ele sorria como bobo, aquele sorriso de quem tem uma boa lembrança. fazia tempo que não ouvia música e fazia tempo que não tinha lembranças: antes de ir embora queimara as cartas e as outras memórias. nada daquilo era mais necessário. tivera a dignidade, ao menos, de perceber que se mantinha preso à aquilo por conveniência e que precisava agora de algo real, não depiedade. a plena consciência não fora fácil, obviamente, mas viera. a vontade também - e, acredite, essa fora outros 500, um esforço homérico. mas tudo havia sido resolvido e, tirando aquela pontinha de dó e arrependimento, ele se achava agora mais sábio e sensato.

era quase pacífico o preço a pagar pela liberdade: desatar os laços. procurava a distância - e achava que havia encontrado - mesmo que ainda não soubesse lidar. iria aceitar eventualmente. todo mundo aceitava. agora era esquecer do que havia ficado (nada daquilo fazia bem) e procurar o endereço, o seu destino.

suas olheiras se faziam visíveis, mais do que nunca. ele estava amassado e branco. muitas tinham sido as noites dormindo dobrado em bancos de carros, caronas, trens clandestinos. dias e dias vagando, pois a grana era curta - rodoviárias foram hotéis razoavelmente confortáveis. e os bares... ah, os bares. como sempre foram igrejas loucas, com pregadores e fiéis. todo mundo procurando a salvação no fundo do copo, sem distinção. putas e bebuns, vagabundos, malandros, sinuqueiros, todo um rebanho de insanos e sujos. ele mesmo tinha passado algumas dessas semanas procurando ser salvo de boteco em boteco, esperando receber uma mensagem de que sentiam saudade, que ele voltasse pra casa.

porém não recebeu nada e chorou em banheiros sujos. mas agora era diferente. se agarrava a outro algo, nunca antes despertado. não chorava. não havia tempo. aquele pedaço de papel deteriorado parecia marcado com prazo de validade, algo como se ele o tirasse do punho fechado ele simplesmente desapareceria no ar. o endereço final estava ali, pensava ele resignado - e se esse não fosse seu destino final em vida, seria em morte.

passava agora mesmo por um bar. um velhote tomava uma cachaça no balcão da espelunca, sozinho. instantaneamente sentiu-se solitário, como que por solidariedade, mas depois abandonou o pensamento, afinal, era novo na cidade, não sabia as histórias da cidade. e não havia tempo para pensar bobeiras. parara apenas pra pedir informação sobre a rua das rosas. rua das rosas, 47. "ali, no fim da ladeira, lá em cima." ajeitou uma última vez a mochila de viagens sobre os ombros, tomou mais coragem, amassando o envelope de carta borrado e subiu o caminho todo em um só fôlego.

achou o 47 e acendeu um cigarro, só para ter o que fazer com as mãos nervosas. mesmo não acreditando mais em deus, fez uma rezinha miúda, sussurrada. tocou a campainha e esperou. a porta abriu e ele engasgou com a tragada. a pessoa do outro lado parecia sem reação, em uma mistura de choque, surpresa e nojo.

ele se adiantou e sorriu. disse:
"oi."
"você acha que pode aparecer assim do nada? já fazem 5 anos..."
"geralmente a boa educação manda responderem 'oi. tudo bem? quanto tempo! você parece cansado, quer entrar?'"
"C-I-N-C-O anos. ANOS."
"tudo bem, eu entendo. desculpa. me chama pra tomar um café, por favor, acabei de chegar de viagem."

e ela, de primeira, exitou, mas abriu caminho como sempre abria, chegando pra trás. "eu não gosto dos seus modos... nunca gostei."
"é, eu sei."

e a porta se fechou atrás dos dois, a cidade calada, o fim de tarde caíndo.

-- Mercedes | |

essas porrinhas de youtube ficam muito feias. mas essa cena é o "resumindo". de tudo.

-- Mercedes | |

something has happened to me and I'm very lost

-- Mercedes | |
-- mercedes --
this is nothing but a manual on how to vanish completely.

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