hey, mercedes!
"Don't you want to join us?" I was recently asked. "No, I don't," I said.

'jurei mentiras e sigo sozinho'

dias atrás passei um tempo conversando com uma amiga que mora fora do país, jogando conversa fora mesmo. dispensável dizer que a internet inibe o assunto e esfria os relacionamentos e tudo; então assumo que estávamos trocando amenidades, por falta de assunto. enfim, estava ela a me contar os avanços das viagens e as belezas das coisas, dos lugares, do tesão de viajar e etc, até cair no ponto chave, aquele de todo e qualquer viajante sem rumo ou companheiro: a solidão.

disse-me ela que estava começando a querer voltar, não por saudade da vida que havia deixado aqui (comodidades pagas pelos seus pais) ou amor à pátria. nada disso. mas sim pelo fato de estar começando a enlouquecer em um lugar onde ela está louca para se conectar e se encontra atolada nos impasses da língua e nacionalidade. é, aquele velho caso de lost in translation.

então fiquei a chorar umas pitangas com ela - mais ouvir do que chorar para falar a verdade. (pois me faltam pitangas, já que fora as neuras diárias, tudo me é satisfatório atualmente). a solidão, em si, por exemplo, já não me incomoda mais.

veja: não imagino essa solidão eremita, a solidão desesperada da não-compreensão. esta deve ser angustiante. mas me pergunto se não nos encontramos constantemente na solidão do silêncio dentro do nosso próprio país, das nossas próprias casas, ônibus, elevador, rotina, amigos no bar, roda de violão?

e qual o problema dela? creio que a solidão sofra um preconceito, idéia errônea de que ela é sempre ruim, que não podemos ficar sós. que a humanidade NECESSITA de trocar tudo, de tocar, de encontrar. porque isso? eu acho tudo muito reconfortante, particularmente. healing. a solidão cura. a concha pode ser medrosa, porém é segura. blocos de pedra. estou atrás de muros todo o tempo, sejam eles meus braços cruzados ou um olhar que analisa de cima a baixo. estou aqui, atrás de um agora.

meus julgamentos, minhas mentiras. e não creio que seja coisa de quem se acostuma. 'me acostumei a ser só. aprendi'. não, definitivamente. é mais do que o hábito, creio que seja uma vivência inteira, desde a doce juventude. a solidão é um cônjuge temperamental, na melhor das hipóteses, porém compreensivo quando necessário.

me peguei falando disso com outro amigo noite dessas, na solidão acompanhada da manhã. falávamos nos tipos de pessoas solitárias que aparecem e cheguei a conclusão de que deveria pensar mais nos tipos todos de solidão que nos rodeiam. ele me disse que, talvez, eu pensasse na solidão demais - que as coisas não eram assim.

não creio, com certeza. como não pensar em algo que habita o pensamento o tempo todo PROPOSITALMENTE? para mim seria como trair um melhor amigo convidado para uma estadia eterna em minha casa. afinal, querendo ou não, precisando ou não, EU a trouxe para perto e ela sempre esteve lá por mim.

-- Mercedes | 10:57 |

'jurei mentiras e sigo sozinho'

dias atrás passei um tempo conversando com uma amiga que mora fora do país, jogando conversa fora mesmo. dispensável dizer que a internet inibe o assunto e esfria os relacionamentos e tudo; então assumo que estávamos trocando amenidades, por falta de assunto. enfim, estava ela a me contar os avanços das viagens e as belezas das coisas, dos lugares, do tesão de viajar e etc, até cair no ponto chave, aquele de todo e qualquer viajante sem rumo ou companheiro: a solidão.

disse-me ela que estava começando a querer voltar, não por saudade da vida que havia deixado aqui (comodidades pagas pelos seus pais) ou amor à pátria. nada disso. mas sim pelo fato de estar começando a enlouquecer em um lugar onde ela está louca para se conectar e se encontra atolada nos impasses da língua e nacionalidade. é, aquele velho caso de lost in translation.

então fiquei a chorar umas pitangas com ela - mais ouvir do que chorar para falar a verdade. (pois me faltam pitangas, já que fora as neuras diárias, tudo me é satisfatório atualmente). a solidão, em si, por exemplo, já não me incomoda mais.

veja: não imagino essa solidão eremita, a solidão desesperada da não-compreensão. esta deve ser angustiante. mas me pergunto se não nos encontramos constantemente na solidão do silêncio dentro do nosso próprio país, das nossas próprias casas, ônibus, elevador, rotina, amigos no bar, roda de violão?

e qual o problema dela? creio que a solidão sofra um preconceito, idéia errônea de que ela é sempre ruim, que não podemos ficar sós. que a humanidade NECESSITA de trocar tudo, de tocar, de encontrar. porque isso? eu acho tudo muito reconfortante, particularmente. healing. a solidão cura. a concha pode ser medrosa, porém é segura. blocos de pedra. estou atrás de muros todo o tempo, sejam eles meus braços cruzados ou um olhar que analisa de cima a baixo. estou aqui, atrás de um agora.

meus julgamentos, minhas mentiras. e não creio que seja coisa de quem se acostuma. 'me acostumei a ser só. aprendi'. não, definitivamente. é mais do que o hábito, creio que seja uma vivência inteira, desde a doce juventude. a solidão é um cônjuge temperamental, na melhor das hipóteses, porém compreensivo quando necessário.

me peguei falando disso com outro amigo noite dessas, na solidão acompanhada da manhã. falávamos nos tipos de pessoas solitárias que aparecem e cheguei a conclusão de que deveria pensar mais nos tipos todos de solidão que nos rodeiam. ele me disse que, talvez, eu pensasse na solidão demais - que as coisas não eram assim.

não creio, com certeza. como não pensar em algo que habita o pensamento o tempo todo PROPOSITALMENTE? para mim seria como trair um melhor amigo convidado para uma estadia eterna em minha casa. afinal, querendo ou não, precisando ou não, EU a trouxe para perto e ela sempre esteve lá por mim.

-- Mercedes | 10:57 |

para além dos barcos

ele queria que eu fosse terra. implorava, choroso, esbravejava, parado ali de pé no porto, batendo o pé nas tábuas precárias que formavam o chão. infelizmente, eu não podia ser terra, jamais. só de estar ali, escutando o barulho das ondas, o canto das sereias - o som do mar - me chamava, e eu só desejava partir. e ele segurava minha mão, como âncora, me mantinha ali contra a minha vontade. às vezes me chacoalhava pelos ombros, secando as lágrimas. dizia:

"tens que ficar em terra, aqui, iniciar uma vida!"

e eu só podia responder que não podia ficar, e não queria, que a água salgada me permeava o corpo, a necessidade de partir corria nas veias. era algo além da minha escolha, era biológico, era espiritual.

"deixa de ser errante. é necessário ancorar! isso é fogo da juventude, não seja imatura! cresce! fica aqui. comigo."

não posso, não devo. meu coração está no além mar, enterrado fundo. meu espírito está em cada porto: já estive em todo o mundo e não posso pertencer a lugar ou pessoa alguma. minha vida - coleção de milhas navegadas - é o mar e só isso pode ser.

veja bem, meu bem. nasci doce, mas tenho que seguir meu curso. meu senhor, sou água: indomada e imcompreensível. minhas profundezas tem mistérios, e tesouros, mas são perigosos e profundos demais para pertencer a alguém. 'my heart, dear sir, my life - i'm a sailor - it's a no man's land.'

"então eu te acompanho. vou contigo."

não podes, não deves. não virás. não afundarás comigo os barcos. você é terra, teus pés jamais serão espuma do mar... não conseguirás, como desejas, me segurar entre os dedos. eu sou fluido, meu senhor - não é possível me prender ou possuir. acho que, para ter-me consigo, só em mim se afogando.

(porém eu não desejo ser, jamais, a água em teus pulmões)

-- Mercedes | 10:30 |

on belonging (i can't believe the world is still turning)

todo dia acordo desejando largar tudo para me juntar a uma igreja, seja ela qual for, sua fé ou crença, preferencialmente a mais alienante e mais aficcionada posível, mais baseada no não questionamento e na salvação a longo prazo; penso nessa igreja como esconderijo, como abrigo. penso também em, talvez, quem sabe, me enfiar em uma concha de amor familiar, finalmente aceitar a minha mãe e minha pequena burguesia, arranjar um namorado executivo-júnior que me leve ao cinema e depois para jantar, vivendo em um amor brando, resignado, tijucano, sem pensar e sem doer, nunca.

talvez um dia dê a louca e eu faça essa coisa toda, desenfreada no meu caminho de homogeniedade e aceitação, de ser "pessoa normal, de boa aparência, bem vista pela sociedade, querida por parentes, amigos e colegas de trabalho, protetora dos animais, ativista da minha cidade, gentil com os vizinhos, amena com estranhos, de produtividade mediana e humor de seriado-enlatado-americano, amante gentil e devota de seu santinho de casa".

ou não.

claro que penso sempre isso até às 7:30 da manhã. depois lavo o rosto pra sair correndo atrás do ônibus, na minha aparência matutina e transloucada, deplorável pela manhã, e não dá pra pensar em ser ou ver ou o que diabos for, pois só tenho tempo de perceber que não penteei o cabelo e que a porra do motorista cortou pela pista de fora, olha lá, logo quando estou atrasada, né, grandissíssimo filho da puta...

-- Mercedes | 12:47 |

pedaços

gosto dela pois se senta comigo, trazendo as xícaras de café e pergunta, com interesse genuíno, como foi meu dia e as outras pequenas coisas. olha no fundo dos meus olhos e explora a minha curiosidade infantil, com perguntas e mais perguntas sobre as coisas bobas que eu fiz ou vi, deixando minha imaginação divagar, no mesmo método desde que nos conhecemos.

hoje mesmo, enquanto mexia a colherinha para dissolver o açúcar, insistiu, quebrando o silêncio bege do fim de tardinha:

"como foi o dia no zoológico? me conta. viu que bichos?"

de primeira me senti encabulada para responder, mesmo fazendo esse ritual há tanto tempo, achando que seria boba e trivial ao falar de coisa tão corriqueira, mas ela estava com a mão apoiada no queixo, balançando a cabeça. não sei porque, acho que eram os olhos, só podiam ser os olhos... me encorajaram, e eu me empolguei e contei.

contei tudo, todas as sensações, dando pulinhos na cadeira. falei desde os macacos até os morcegos, das fotos que tirei dos peixes e dos mamíferos que sempre dormem no calor. e ela concordou com tudo, com uma atenção redobrada (que pode até ser farsa, não me importa), e elogiou meu cabelo, fazendo como provavelmente faz com as crianças, suas pequenas alunas da escola municipal.

não sei se acho esse encanto, esse momento semi-diário, infantilizador ou não. acho que deveria me sentir revoltada, talvez idiota. mas só sei que gosto.

***

hoje sonhei com meu avô. não me lembro de muitos momentos com ele, não tenho muitas lembranças - ele sempre morou longe e na minha infância o tempo passou muito rápido. não me lembro se sonhei com alguma cena específica, e se essa era real ou fantasiada, só sei que acordei com uma sensação de bom momento. pensei no amor de vô e vó, pensei em família e em tudo. pensei no que repudiei (e acho que ainda repudio) por tanto tempo.

e me senti cretina, obviamente. chorei um bocadinho, ainda com a cara no travesseiro. tive a consciência da indignidade do meu ato de deixar passar, de esquecer mesmo, de não sofrer mais de saudade tanto dos mortos quanto dos vivos.

foi doloroso pensar nessa falha moral minha, mas a dor não foi só necessária... ela foi iluminadora (e masoquistamente gostosa - me fez sentir a vida, lembrar a morte com amor e saudade e, ainda assim, me distanciar dela).

***

isso acima não são textos. são pedaços. não interessa. enfim... post-econômico-desabafo. partes de nada.

-- Mercedes | 22:24 |

[ a sensação da entrega pessoal total é a mesma de estar entregando o ouro ao bandido ]

-- Mercedes | 23:01 |

Doldrums

“Oh, meu pobre Avery, olhe só para você. Está pálido, com essas olheiras fundas... os seus olhos já não brilham da mesma maneira!” - disse Emmet, em minha sala de estar, com seu olhar mais digno de pena - “Veja, meu bem, porque você não desliga o telefone, não pega apenas sua máquina de escrever e viaja para Cape Cod por umas duas semanas, sim? Escreva seus romances, responda aquelas cartas acumuladas... pegue seu carro e siga pra lá e não faça absolutamente nada. Levante-se o mais tarde possível, deixe que a criada traga seu café-da-manhã na cama. Sabe, creio que as pessoas que se levantam muito cedo tendem ao nervosismo extremo, tornam-se neurastênicas. Então tire férias, tome um banho o mais quente possível, beba uma taça de vinho! Leia um livro na banheira, meu caro! Você definitivamente necessita de novos ares!” - e ele pontuava cada uma das exclamações com o dedo indicador, fazendo brilhar o anel adornado por um escaravelho de esmeralda - “Faça grandiosas refeições pois você está terrivelmente magro e essa finura não lhe cai bem. Passeie! Você é tão elegante. Porém, evite as Balzaquianas horrorosas do clube de golfe. Esbanje, meu caro. Nada melhor do que serviçais e dinheiro para mimá-lo, para fazê-lo esquecer dessas besteiras de paixões que arrefeceram...”

-- Mercedes | 17:13 |

nefelibata

talvez eu tenha mesmo me perdido, talvez eu nunca tenha nem ao menos me encontrado, talvez eu tenha vivido de ilusões grandiosas, criadas pela minha mente bipolar-desesperada-alcoólatra, ou talvez eu tenha apenas me afogado em dramas tolos, em histórias insanas inverossímeis inacreditáveis.

talvez eu tenha mesmo passado do ponto, talvez eu tenha permeado demais o meu mundo de pequenos detalhes deveras frágeis, impraticáveis demais para qualquer vivência saudável, talvez eu tenha me rodeado de sonhos não-tão-sinceros e fechado meus olhos para tudo que fugisse um pouco das minhas utopias.

talvez eu tenha mesmo construído uma vida em cima de terreno lodoso e infértil, talvez eu tenha mesmo contado e ouvido e gostado e vivido de mentiras e nada mais que mentiras, talvez eu realmente tenha, no fundo, acreditado que todas elas são histórias confortáveis e perfeitas.

e talvez elas tenham mesmo sido histórias plausíveis, talvez elas tenham sido miméticas. talvez mesmo elas só tenham se diferenciado da realidade, em qualquer momento, pela intensidade da minha propensão em acreditar. talvez todas as dores sejam temporárias (umas mais que as outras), talvez todas elas nem sejam verdadeiramente dores.

mas, com certeza, não sei o que é e o que não.

-- Mercedes | 18:09 |

Caio Fernando, uma conclusão anônima do orkut e todas essas coisas (tudo dica de Mrs. Rasssççeeeel ;D)


ALÉM DO PONTO

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.

Um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta.


Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorri mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca.

***
e a conclusão:

"Já experimentei o desejo do Outro como porta onde eu batia e que não se abria nunca. Também já passei do ponto. Já acreditei como a personagem desse conto, que a porta se abriria sim, e apenas para mim. Dói à beça. Mas também já fiquei atrás da porta, ouvindo as batidas. A solidão é a mesma."

enfim... ainda existe humanidade na terra.

-- Mercedes | 18:17 |

meio sonho

não pude deixar de sonhar com a cena que estava imaginando pouco antes de dormir. o espaço apertado do elevador, só os dois, um cubículo sem escapatória pelos sufocantes minutos da subida do prédio do seu escritório. você a caminho do seu trabalho, ela, a sua cliente. iam discutir detalhes do acordo. tudo tinha uma áurea meio novela mexicana, muito precário.

aí sonhei que ela roubava um beijo seu e que você não reciprocava. só fazia aquela sua cara típica, meio inocente, meio saboreando -- cara de cretino, eu diria -- tirando o corpo fora. pensava, no sonho, que você pensava "eu não tenho culpa se ela gosta de mim, se entende errado". no sonho, você a tinha, mas sem querer pra si. (creio que isso seja subconsciente, e reflexo da realidade).

já ela, magoada pelo seu amor não correspondido, faltava com a dignidade e se apressava em me culpar.

depois de abaixar os olhos, ela te disse, com ares dramáticos demais para situação tão pífia:

- é ela, não é? você a ama... não há espaço pra mim!

e você respondia, falando de mim:
- não é que eu a ame... é, a amo, sim, mas não estou apaixonado. entenda! entendes? *meio sorriso*

aí acordei. parecia tudo ridiculamente real...

-- Mercedes | 09:56 |

o bom humor continua

li o poema do sam shepard no blog do rick. acho que entendo (a interna).

é verdade, é verdade. acho o desespero todo muito chato, os lamentos insistentes, um eterno arrastar da vida, tudo muito entediante.

não só o meu lamentar, mas o de todo mundo. nhé nhé nhé de disco arranhado. caralho. ouvindo todo dia as insatisfações, lendo a dor de cotovelo alheia. que nóia.

a vida continua, porra. a vida continua.

mas penso também: alguém, em uma conversa, por acaso, está genuinamente disposto a ouvir sem falar NADA sobre sua própria vida? lembro daquela aula de literatura: só ouço o seu sonho porque quero, internamente, que você ouça o meu... é assim. a lamúria ranhosa move o mundo.

essa troca de cicatrizes, a mútua lambeção das feridas, o consolo sonso para que você me console. é assim.

aí lembro da irônica vice magazine também: "you better include me in this conversation in the next five seconds or else i am getting the fuck outta here."

enfim, é bem melhor assim mesmo. parecer menos sofrido, SER menos dramático -- esse eterno medo, e o complexo de "mãe judia" -- e levantar a bunda do lugarzinho quente no mundo do pensamento...

e parar de encher o saco.

-- Mercedes | 18:13 |

ps. vou reabrir também o meu blog antigo. ele é MUITO ruim. chega até a ser bom.

-- Mercedes | 16:52 |

medo n° 3677: de ser feliz

eu sempre tive medo daquela pasta do hotmail. aquela mesmo, com o nome de "para responder" mas que, na verdade, deveria chamar "memória idiota sentimental". hoje eu a reabri. a pasta é como um baú de pérolas com pequenas mariposas, com cheiro virtual de guardado.

havia me esquecido dela ali no cantinho, existente já há 7 anos, pequeno e desimportante ícone.

não deveria, mas joguei bastante coisa fora. fotos, pequenos recados de amor. aqueles e-mail chorosos. não deveria ter aberto a pasta, ou deveria ter impresso tudo sem ler e dobrado, colocado naquela sacola da gaveta, junto das outras memórias que eu nunca mais quero lembrar.

não, não são memórias de tempos ruins, não são más lembranças. são traços de um passado feliz, um passado amoroso. são mensagens lisonjeiras, lindas.

e é por isso que dói tanto.
(o fato que estraguei tudo também contribúi SEMPRE)

-- Mercedes | 16:51 |

Caio Fernando do dia

"Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suícidios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro o cheiro preciso dele..."

oi?

-- Mercedes | 20:39 |

Columbia

era uma figura estranha. adorável, porém estranha. cabeça baixa, sempre, cabelo desgrenhado, uma sombra de barba de dois dias...

tinha um toque de fotógrafo no lenço em volta do pescoço, excêntrico. tinha um outro toque, o dos poetas, ou estudantes aspirantes, nos óculos de aro preto, grossos. tudo nele parecia retrô e as peças, em separado, meio falsas; mas o conjunto da obra, com a camisa listrada e os jeans surrados, as pulseiras e penduricalhos neo-hippies -- o todo fazia dele muito agradável aos olhos, colorido e bonito.

porém, não era isso que me atraía primariamente. acho que o que me prendia a atenção, realmente, eram aqueles olhos azuis bonitos (especialmente quando sem óculos), e aquele olhar doce e desajeitado. não diria que carregava uma tristeza indizível, pois isso seria piegas e exagerado, mas continha um algo que eu não compreendia -- um quê de desespero, como alguém que quer ser encontrado.

e, claro, eu não era a única. todos os dias, pelas avenidas das cidades e pontos de encontro dos universitários, formavam-se filas enormes de garotas interessadas no pequeno menino perdido... loucas para salvá-lo...

(continua ?)

-- Mercedes | 18:09 |

rehab =

4 barras de chocolate semanais
coca-cola
televisão (todos os programas)
músicas de corno
e-mails emocionais idiotas

e
tédio
tédio
tédio
tédio

mais
calças de moletom frouxas na bunda
e camisa com mancha de pizza.

ou seja,
desleixo total.

que venham as biritas!
(antes que eu vire um bagaço TOTAL)

-- Mercedes | 15:12 |
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