hey, mercedes!
se veio procurando clichê, está no lugar certo.


Abril 28, 2007

meia canção

a primavera entra, os amantes escrevem cartas.
os trigais crepitam como labaredas tortas...
e eu, há tanto tempo entre as coisas mortas,
sou re-animada pela alquimia da tua palavra.

discursa então, meu amor, tua magia diária!
encanta os barcos, os marinheiros e rotas!
para ouvir-te, abrirei minhas portas...
dançarei ao som de sua música imaginária.

posted by Mercedes | 22:57 |


Abril 25, 2007

descuidado

já faz tanto tempo que vi teu barco partir,
tanto, tanto tempo já faz.
há dois anos que estou à deriva...
esperando pelo o que o mar não traz.

gostaria de ter mais que o desgosto
e o desespero da esperança de esperar.
estará você, meu amigo, vivo ou morto?
onde está teu barco que nunca vejo despontar?

então, meu amor, lhe faltarei com cuidado!
abandonarei meu idolatrado posto,
bem triste. irei cantando fados! mas
não me sentarei mais, à esperar, no teu porto...

posted by Mercedes | 23:05 |

imaturo

eu quero que você se foda.

e, quando você estiver na merda,
eu vou estar rindo de você.

posted by Mercedes | 10:39 |


Abril 20, 2007

Observo o professor em seu palanque. Última fila. Uma multidão de nucas atenciosas à minha frente, compenetradas. Raios de luz adentram o cômodo pelas grandes janelas laterais, iluminando idéias e discurso. Assim, como um pavio, vejo o mestre aceso. Suas mãos cortam o ar que, por ilusão, é sólido. Seus gestos apontam, esfaqueiam, ênfase!, mas suas palavras saem mudas e em câmera lenta. É epifânico e cinematográfico. A sociologia de Durkheim já não me interessa. O que atrai minha atenção são os olhos semicerrados, o professor que queima em uma chama branca e fria, um facho de luz branca, muito branca, bem em cima de sua cabeça, superexposto. Etéreo, quase divinal.

Após esse pequeno momento, me levanto, vou ao lado de fora do hall, encosto na parede, perto do cinzeiro. Observo um garoto que exala sua fumaça, entediado, e fico procurando formas nas nuvens. Nada. É um bom momento para assimilar o dia, então penso nesse pequeno momento de agora pouco, na divina providência e no tempo em que deixei a fé pra trás. Já faz bastante tempo, mas é muito irônico como abomino todos os dogmas do meu passado mas, ainda assim, me agarro a vestígios. Abuso do bom e velho "ai meu Deus" em momento de choque, "Jesus!" em momento de susto e dessa bendita fitinha aqui, no meu próprio braço. Um fino, esgarçado pedaço de fita santa, seus nós e meus desejos.

A história da obtenção dessa fita eu já não me lembro. Feriado, santo ou não, é só mais uma folga. Enfim. Só me lembro dela estar ali, desde sempre. A fita. Os desejos, porém, não esqueci. O quão impróprio é desejar desejo a uma fita de santo? Creio que não seja, afinal, quantos santos pecaram antes de serem santos? Tomo a liberdade de considerar, também, minha inocência e santidade. Mas a fita... está prestes a se desfazer, depois de tanto tempo, essa besteira. Realizará-se o meu desejo? Creio que não. Seria tudo muito fácil se fosse assim e tenho idade suficiente para não acreditar nas facilidades do mundo. Sendo assim, não há mal algum em revelar o que foi pedido, quebrar a supertição: pedi amor à tua pessoa, desejo ao teu corpo. Amarrei o primeiro nó enquanto pensava nos teus lábios partidos, como romã perfeita, em duas metades simétricas (e de mesmo gosto). Retraço agora, aqui, encostada na parede, meus próprios lábios com um dedo, em gesto silencioso, como se assim pudesse reter a sensação do teu beijo neles... Braços imaginários continuam a fantasia e me abraçam, bem torneados. Arrepio de leve.

O segundo nó, amarrei desejando a felicidade eterna. Não gosto de milagre pequeno, não gosto de modéstia. Afinal, para quem viverá só mais 20 ou 25 anos, a eternidade não parece muita coisa. O terceiro nó eu nunca dei, não por falta de pedido, mas meio que por falta de vontade. Deveria ter pedido amor, mas aprendi que, como quero um milagre e não um dos trabalhos de Hércules, melhor pensar algo mais. Então, amarrarei o terceiro nó... Pedi teu corpo novamente em minha cama, o fim do seu comodismo crônico, o fim da minha ilusão ridícula...

Todas essas coisas, amarradas nesse fitilho, toda uma vida aqui, nesse pulso. Isso me leva a perceber que, no fim das contas, pouco importa o meu não-cristianismo tolo, ingênuo, você e eu. Há um outro propósito. Percebo que amarrei em mim algo muito além da tua boca vermelha, sexo, desejo, sorriso: amarrei aqui micro-viéis de esperança...

posted by Mercedes | 20:30 |


Abril 18, 2007

vanity

She tried to part her hair to the other side,
The opposite of always, the left side,
Yet her long, black curls had their own will
And came back to their place, standing still.

The long, long curves would just disoblige.

So she asked the clear mirror: "Why?
Why such untamed curls, so damn dry?"
And her image answered nothing,
But something could be seen in her eyes.

The reflected image spoke volumes.
(or, at least, it gave a little try...)
Her portrait talked, and so she heard
In a tiny voice, the message of no words:

"Why bother with hair, when, in the inside,
there is this reckless feeling of wild tide?
Why, woman, care about it, a way to part,
when, in the chest, there's this untamed heart?"

posted by Mercedes | 13:17 |


Abril 14, 2007

sem amor, só loucura

eu digo que hoje é dia!

vamos sair, vamos à festa.
foda-se a noite melancólica,
foda-se o sentimento lá fora:
estou aqui dentro agora
e o mundo é novo,
e o mundo é outro,
e é verde e roxo.

eu sei!
não encontrarei amor no fundo do copo...
mas quem sabe, muito bêbado,
na fila do banheiro?

posted by Mercedes | 17:48 |


Abril 12, 2007

quarto e último dia

Não existe lugar mais próprio para o choro do que o travesseiro. Cama. Não existe melhor amigo, mais compreensivo ou macio, um colo mais quente para apoiar a cabeça. Deixo as lágrimas fluírem, encharcarem a fronha, íntimo assim me consola. Amasso o lençol com as mãos em punhos fechados, de ódio. E angústia. Achei que não fosse possível sentir angústia em meio a um lugar que me parece tanto com o paraíso, mas é possível.

A luz está acesa, você saiu e também não fechou a porta. Me queima a pupila ainda a imagem da tua estrutura pequena sentadinha ali, frágil, no pé da cama, cabeça entre as mãos, meio confusão meio suplício, decisão e dúvida, mala feita, bebedeira e nada. Teu cabelo fresco do chuveiro, sua voz baixa ecoando, toda a conversa: eu horizontal, você ali perto dos meus pés, seus gestos, o meu olhar enevoado, todas aquelas palavras. Duras, moles, sem sentido. Palavras.

Essa imagem... Balanço a cabeça, mas ela não some. Te escuto lá embaixo agora, aos risos, e fico aqui no meu recanto, junto ao meu mais novo melhor amigo. Tua felicidade até que me conforma. Indago meu companheiro de cama, pergunto em voz silenciosa o que ele acha da vida, do amor e das coisas vivas e ele, como sempre muito afiado, prefere ficar em silêncio. Cretino.

Retomo a reflexão. Não desejo dormir agora, é verdade, mas não aguento mais as pílulas, as biritas ou os cigarros, então me ponho à pensar e pensar e digerir assuntos como esse de agora há um minuto atrás, esperando enganar o tempo. Penso, novamente em você lá na sala. Desejo digerir o fim de tudo ainda, esse último beijo nos lábios, tão pesado de partida e também tão despretensioso, de esperança, acridoce, esfumaçado.

É, tua felicidade não me conforta tanto assim. Não me conformo com o fato de você aceitar tudo tão fácil. Sei que não é você o ¿meu¿ para mim, sei que eu não sou a ¿sua¿ para você, sei que não daria certo no antes, durante e depois. Sei que já superei. Eu sabia de tudo. Todos os clichês, todas as falhas. Sabia exatamente aonde eu deixaria a desejar, onde desapontaria, o exato ponto de desistir. Cumpri o cronograma certo (velha fórmula batida é o fracasso) mas ainda assim, no fundo, me bate uma sensação inexata. De onde surgiu esse sentimento final, anormal, que ninguém esperava?

Não sei. Só sei que amanhã é dia de partir, é o dia em que volto para a mediocridade ínfima que chamo de vida, para minhas pequenas coisas e intermináveis projetos interminados. Fecho os olhos para essa última noite, entre pernilongos e lençóis duros, abraço o travesseiro morno, seco as lágrimas. Viro a cabeça, agarro o travesseiro como um outro corpo. Resolvo que não vale nada o sentimento amargo... deixo fluir. Que me invada, finalmente, uma sensação de plenitude! E ela não falha.

Relaxo e me permito, meio amedrontada, rever na parede da memória aquela última cena plena, aquela última epifania: teu riso lá embaixo, como trilha sonora, invadindo a lembrança daquele beijo assistido, aquele que só eu vi - meus olhos abertos, os seus fechados, no último beijo. Só aquele. E até que teve um gosto bom.

posted by Mercedes | 22:43 |

terceiro dia

O pôr do sol é tudo que vejo. Céu pintado de laranja e sombra, por trás de óculos escuros. Enterro os dedos dos pés bem fundo na areia, vejo meu corpo virar espuma. As ondas quebram, fazendo som de concha, gaivotas gralham como velhas rindo, duas ou três crianças gargalham. O riso das crianças é o mais bonito e libertário, invejo essa percepção da infância. A praia está semi-deserta e vejo um casal que se beija no mar, lá longe, pequenos pontos entrelaçados no ponto de fuga azul, e um amigo que descansa esparramado na toalha.

Sinto falta do calor do sol e o vento corta de leve meu rosto, despenteia o meu cabelo. Fora de cena, como sempre, me encontro em pé pensando sobre o nada. Me sento na areia fofa e olho a água cristalina e vou bebericando o resto quente de cerveja da lata. Desenterro duas ou três conchas. Me espreguiço mesmo sem ter sono, cato as conchas, me estalo, esqueleto cansado de tanta folga. Alcanço um Carlton já aceso, pela metade, e trago na calmaria. As crianças passam, correndo, e sinto leveza de espírito, quase podendo tocá-lo, segurá-lo por viés de ouro, com meus dedos.

Abro o livro de Caio F. que trouxe comigo, sem medo de molhá-lo. Descarto a cerveja e o cigarro, despeço-me do meu pudor e da minha calma. Leio citações de rir e de chorar, pincelo as melhores e leio pro vento e pro mar, em voz alta, e ambos me respondem com suas respirações rítmicas e eternas, imutáveis. Penso no vai e vem do mar, por falta do que refletir.

Sinto melancolia fora de hora. Penso em tudo que deixei em casa, penso na saudade e no que é saudade, e concluo que, na verdade, nada me faz falta, nada do que deixei pra trás. Abraço a noite que surge, abraço a meia-luz do poste, confundindo memórias inventadas e fatos, presente e passado. Sonho em deixar tudo de lado, sair sem fazer a cama, como quem foge de casa. Nada do que ficou, entre camas e armários, tetos e apartamentos, realmente me interessa.

Porém, sei que amanhã embarco, sei que vou, resignadamente, de mala e cuia, retornar. Não me culpo. Sei que o que me priva de um mundo novo e louco, no fim das contas, é o comodismo de um emprego sem graça, uma paixão falha e todo tipo de desfuncionalidade. Checo, de cabeça baixa, a carteira e vejo meu passaporte de volta pro regresso, pro cinza-passado: a passagem, bendita passagem, de volta, para amanhã às 16 horas.

É uma corda no pescoço. Cato meu chinelo, não acordo meu amigo. Desço a rua. Quero um trago de vinho, agora, e Miles Davis, quero devorar feliz pão e queijo, e beber ainda mais vinho, no melhor dos humores, nessa espécie mirrada, nessa re-encenação pessoal de uma última ceia...

posted by Mercedes | 15:36 |


Abril 9, 2007

segundo dia

uma hora a festa acaba. o silêncio seria cômodo se não me penetrasse os ouvidos como faca, o corredor ali à frente escuro como breu. essa cama não é minha, nem esse lençol. esse corpo não é meu, nem esse louco pensamento. aperto os olhos, fixando o nada e encontro um traçado de travesseiro, um ventilador, um maço de cigarros. essas pequenas coisas fazem mais familiar esse quarto que não é meu.

uso o isqueiro para ver um palmo na frente do nariz e não encontro nada. não faz diferença. diabos, de que importa querer ver algo em um quarto cheio de nada além de brisa e ronco? acendo o cigarro e cantarolo "don't smoke in bed". rio da ridícula ironia. escuto o zumbido de um mosquito e sopro fumaça pra cima, pela boca e pelo nariz. fumo até o filtro e esmago o resto no chão ali do lado do colchão. ainda sobe fumaça da bituca defunta, no seu último sopro de vida.

de longe escuto um suspiro. me deito novamente por completo, afundando a cara no travesseiro e deixo fluir o pensamento. sonho que você sonha com meu sonho, mesmo que eu ainda esteja de olhos abertos. desconstruo todos os meus 19 anos de vida até agora, coloco em linha de tempo e re-alinho meu próprio eu, ao meu bel-prazer. construo duas, três de mim. descarto as mais toscas, mantenho a que mais me agrada. fico com esse feliz esboço.

disseco minha vida até o ponto mais nu, acendo outro cigarro, reprimo um pigarro. minha garganta está seca, mas eu trago e trago. penso em comodismo e desejo mudar o mundo, começando por mudar a mim mesma. tomo decisões importantíssimas até obscuras horas da manhã. a casa dorme. a cidade dorme. esse quarto não me pertence.

me viro de lado, esquecendo de vez o cigarro amargo e crio uma nova ideologia, um novo plano. reúno coragem e monto tudo, aperto o play e vejo a grande cena da minha vida tocar dentro da minha cabeça. tudo funciona, lindo: sucesso, amor, dinheiro. é tudo muito prático. porém a bebedeira vai e o sono vem, se instalado em pálpebras que agora estão pesadas demais para não fecharem e passo a desdecidir o severamente decidido, caio por terra com todas essas minhas novas decisões.

perco a veracidade de minha própria palavra, minha promessa, mas isso nem me importa. faço isso para poder acordar de novo quadro em branco, sem medo de regredir. me conforta não saber o caminho, me conforta não pensar em todas as coisas - me mantenho viva só para acordar de novo em uma nova cama estrangeira, numa casa estrangeira e poder começar tudo de novo, assim, nessa vontade de sonhar...

posted by Mercedes | 22:56 |

Primeiro dia

A excitação míngua conforme raia o dia. Me estico na cadeira, pés sobre a mesa de centro, afastando copos vazios e cinzeiros cheios, um livro e um cd, um maço pela metade. Sinto o cheiro de detergente, o barulho do arear de panelas. Fecho os olhos por um segundo e só escuto alguém que cantarola, os passos pesados de quem desce a escada. Um jantar pleno, o corpo quente, o vinho que sobe e enevoa meu pensamento. A risada dos amigos ecoa nos cômodos do fundo agora. São 5:30 da manhã e ainda não dormimos, estamos de pé e o céu está rajado de laranja e roxo e parece sem sentindo deitar agora, no início da festa, nessa bebedeira afogando o cérebro. Que desçam os copos e as garrafas, o vidro de vinho que tintila, latas de cerveja sendo abertas, que chiam.

Termino a minha própria cerveja e repouso a lata no canto da minha poltrona, e reúno coragem pra por meus pés descalços no chão frio, ébria e brusca e me arrasto, derrubando um baralho no chão. Junto forças e me levanto, suspiro, abandono a bituca num balde e vou à cozinha, entre panelas e pratos, sobras de molho e migalhas de pão. Aqueço a água na chaleira para o café e não me importa a hora, se é hora de dormir ou acordar, sou dependente desse prazer do despertar negro. Observo a água até a fervura e despejo no copo, porra, café instantâneo, fraco demais. Dane-se. Sopro o copo e retomo meu lugar no caos feliz da sala. Sinto uma melancolia estranha enquanto apoio o copo e vejo o balançar da rede e risco um fósforo e fumo meu quinto cigarro nessa meia hora da manhã, e só escuto meu próprio pulmão e o crepitar do tabaco, sua aparência no escuro e no silêncio.

Resumo o café fraco à um último dedo. Trago longo e abandono a pífia bituca dentro do copo de café, e ela bóia, encharcada, flácida e inútil. Deixo a louça lá, em conjunto de bagunça com uma camisa, uma caneta e as cartas e subo, me carregando pelas escadas. Deito, pés sujos no lençol em uma cama aonde já dormem dois, carinhosamente unidos. Passo um braço pelos corpos, procuro um abraço, não quero ficar só. Alguém suspira em sonho e é a última coisa que acho que escutaria antes do real dia até escutar os passos de chinelo de alguém que sobe as escadas da frente, e ver a silhueta de Filipe, engolido pelas sombras, meio iluminado apenas pela fresta de luz do banheiro de fundo, e sua voz, doce, ecoando serena naquela palidez de sono, afirmando: "Ô, festa boa essa, hein..."

posted by Mercedes | 12:29 |


Abril 3, 2007

teoria do valor-importância

segundo minha mãe,
não valho nem meus poemas escrotos.
segundo o banco,
a agência de seguros,
minha morte vale 900 contos.

valho o quanto peso?

às vezes não valho nada.

posted by Mercedes | 12:02 |
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