hey, mercedes!
"Don't you want to join us?" I was recently asked. "No, I don't," I said.

breakfast

desligam-se as ultimas luzes brancas do palco, acendem-se as luminárias suaves de parede. as cadeiras estão todas já de pernas pro ar, em cima das mesas e Elton varre o pó na sua dança de limpeza como vem fazendo, toda madrugada, desde 47. a fumaça da noite começa a assentar nos cantos da boate, em cima das cinzas.

estamos sentados em cadeiras de ferro no camarim dos fundos, entre suas paredes branco-encardidas, lotadas de dedicatórias. grandes nomes, pequenos nomes, lemas, desenhos obscenos. uns furinhos aqui e ali, entre um autógrafo e outro, que ninguém ousa tapar pois até eles fazem parte da história. a banda toda está ali: Harry, Theo, Jon "Rumba" e todos os outros 8 caras, negros e brancos, e Honey, a linda cantora negra e bocuda, seus dentes perolados e todos os instrumentos, ainda meio jogados, fora das caixas. vejo um bumbo e baquetas entre maços de cigarro, Bob Bombay assopra de leve seu Sax, se equilibrando numa pequena mesa entre toalhas suadas e garrafas de cerveja vazias.

é como uma jam session dentro de um quartinho, com acordes dedilhados e caos e vozes, Honey puxa versos de Nina Simone, Artie batuca no bongô - é como se o show tivesse se transmitido do palco para agora, um número mais suado e íntimo. como regente, te olho guardando o trompete e você está lá, uma figura negra e alta, rindo: Ray "Sunshine" Smith, o líder do Vanguard Jazzists, equilibrando um cigarro entre os lábios, recolhendo o case do trompete e uma garrafa de Scotch enrolada em um saco de papel marrom, tragando e exalando, acenando em despedida.

"Vamos, Big T., vamos que depois de hoje e todos aqueles improvisos eu podia comer um boi!"

e assim passamos pela cozinha, para beliscar qualquer coisa que tenha sobrado do serviço da noite, mas Bonnie, o cozinheiro dos maravilhosos omeletes daqui, já está guardando as facas e acena com a cabeça, com olhos cansados de 5 da manhã, uma singela despedida. saímos pela porta dos fundos e vamos andando para o "Phil's Diner", aquela espelunca na 5° avenida, aberta 24 horas por dia. A essa altura do campeonato as mesas estão todas lotadas de trabalhadores de sobretudo, lendo seus jornais e comendo waffles e tomando cafés antes do trabalho, papeando e correndo pra pegar o metrô.

para os farristas sobra o balcão. nos sentamos ali. você bota o case do seu lado, no banquinho, como uma terceira pessoa. "ARTIE! ARTIIIIIIIIIIE!" você chama o italiano bonachão, suado no seu avental branco, careca e bigodudo. Phil morreu faz uma década mas Artie, como um bom garoto, manteve a história viva do nome, como uma preciosa herança.

"O pedido de sempre, Sunny Smith? e um café, certo, Big T?"

"Sempre, Artie boy, sempre."

vem o café e eu te olho no banquinho do lado, cotovelos apoiados no balcão de madeira engordurado e eu sei que você está salivando só de sentir o cheiro das panquecas que um jovem universitário está comendo ao lado do trompete. o cara é um branquelo magro e afoga as panquecas em melaço, numa torre simétrica com um pequeno tablete de manteiga em cima, como se fosse um condenado e aquela, sua última refeição. ele corta com o gosto que uma noiva corta o seu bolo de casamento e enfia na boca, mastigando, melado, às bocarras, com grande satisfação como bem sentiria um vagabundo o prazer de comer uma primeira refeição quente e maravilhosa.

o meu café, assim, solitário, sem acompanhamento parece melancólico no ambiente vaporoso e animado da madrugada do Phil's, onde várias pessoas se reunem pra comer delícias americanas com um toque de Itália especial do Phil, o único italiano que não tem uma pizzaria aqui no Lower East side, ou então pra encontrar os amigos e descansar as pernas cansadas depois de uma madrugada assistindo shows, ou em festas nos apartamentos dos amigos, mastigando um bagle comprado na padaria judia do outro lado da rua por 1 cent. Phil realmente não se importa.

chega o seu pedido, que é o de sempre mas ainda assim me impressiona: um bife de dois dedos de espessura, com acompanhamento de batatas - um bife enorme, quase ao ponto, fumegante, com um mar de batatas fritas amarelinhas, douradas, raios de sol. me impressiono com a sua fome e sinto enjoo por um instante só para no instante seguinte sentir meu estômago roncar também um pouquinho, ali no fundo, e Sunny Smith, com seu ouvido afiado de trompetista mastiga, engole, larga o garfo e a faca e grita "ARTIE! ARTIIIIIIE! não fique aí parado, gordo safado, e traga um hambúrguer aqui para o meu garoto, Big T, antes que ele desmaie de fome!"

e assim vem, expresso, um hambúrguer que eu mastigo com mais vontade do que achei que iria mastigar. acho que no fundo um roadie também merece um café da manhã de campeão, cheio de carne vermelha e fritura, engordurando os dedos, com ketchup e molho, entupindo artérias cardíacas no prazer de dividir uma refeição com um amigo, essa velha relação antropológica de paz lado a lado, de partilha de bate-papo sobre comida quente e refil de café forte, em balcões por toda NYC.

uma garota que é mais uma criança, senta do meu lado com belas pernas enfiadas em uma sainha juvenil, mostrando longas meias de colegial e é errado achar essa garota bonita mas, diabos, ela é bonita e apóia o queixo na mão, olhando intensamente pro seu copo de coca, levemente triste, levemente entediada, girando o refrigerante no copo com o canudinho, procurando segredos nos cubos de gelo do copo alto. o grupo de garotos loiros da sua universidade usam jaquetas e falam alto, até quando pretendem cochichar: eu bem os vi assistindo o show hoje à noite e eles estavam se deliciando e olham de soslaio pra Sunny Smith, apontando, admirados, praquela figura alta empoleirada naquele banquinho pequeno de couro.

as garotas chupam os milkshakes até o final, fazendo "sluuuuuuuurp!" nos copos, e eu peço mais ketchup pras minhas cebolas fritas, raspando o queijo cheddar do prato. Smith come as batatas com os dedos e olha pra mim com humor renovado, esfregando o estômago levemente estufado como um filho querido, e olha pra cima, pro cardápio, ponderando o que apetece e o que não apetece.

"Big T, big T, o que é a fome bebop? É a fome do jazz, sempre, sempre!"
"Eu não aguento mais nada."
"Você é um branquelo legal, T-bop, mas ainda te faltam muitos bifes, cara!"

e sorri, me dando tapinhas no ombro, na brincadeira. acaba de sorrir e assusta o resto da clientela (ou pelo menos os não acostumados com a presença diária de Ray Sunshine ) gritando "AAAAAAAAAAARTIIIIIIIIIIIIIIIIIIIEEEEEEEEEEEEE! me traz um café-da-manhã completo, com ovos mexidos e linguiça, e não economize no bacon, seu carcamano pão-duro!"

-- Mercedes | 14:48 |

railroad trippin'

i see you wandering around the trainway. no foot path, no sidwalk - those are unecessary ways in one's life.

we meet behind the abandoned railway station. there's nothing but vagabonds asleep with their stray dogs and debris, fallen concrete and dust. and us: there is us, a couple recently out of love, a young couple that has shared nothing more and nothing less than eachoter's miseries.

you tell me you came crying all the way from home. shedding your tears in public, with no dignity, you say, while sitting on the train. you tell me you've been crying all the time now: life's been harsh on you and that i can see. it has been harsh on your adorable little body. i hold your hand and it's not white and it's not smooth - it has a feel to it of dried blood and shattered petty things. but your mood changes fast.

your soul smells like desolation.

your heart carries the karma of a rotten peach. but don't be fooled by the half-smile hanging from my lips: in the inside i feel too the solid weight of broken dreams but i choose not to give a voice to my heart's desires. i gather my drifting attention, driving it back to your whispering voice.

"are you listening to me? promises --", you sound angry all of sudden (it feels like old times), "you fed me promises. our life was nothing but a sketch." you say, throwing a rock on the sky line. you pierce me with the look on your eyes. i try to make small talk but it doesn't work. it has been a long time since i've last walked on the face of the earth, so i'm rusty. i'm silent. i'm helpless. i feels waves of melancholy coming and hitting, i am this lonely, rocky shore, and the tidal melancholy settles, making sea sounds.

i have you, we have eachother, yet my boat is sinking all the way, swallowed by this unexpected flood.

we walk for miles, kicking little stones and, inside my head, little me drowns in a red ocean of guilt. i blame you for fooling me so i can regret and blame myself. did i fool myself? foolish, foolish. it feels right to blame myself - there is no harm. so i float to the foggy dew, above the clouds, above San Francisco and i get lost in a long, hurtful thought, seeing colors of pain and sensual pleasure, finally finding and revolving my own insides.

i can touch my dharma on the top of that sacred peak.

finally i can come back to no conclusions, only more doubts per se. i land on the world of the living to find myself standing alone in the middle of nowhere, lonely and lost in the arms of your town. so i think of you smiling, laughing of all the irony that hits me like a punch in the back of the neck, this habit of your that always, ALWAYS is my faith and sin:

once again you've left me behind.

-- Mercedes | 14:33 |

efeitos

eu gostava de me sentar na sala de estar dele, nas esteiras chinesas ou no futom macio e olhar o movimento de entra e sai do apartamento. a porta nunca estava trancada e havia esse constante fluxo de fantasmas, rostos pálidos, mais à noite do que de dia: eternas vozes em conversas longas e loucas, uma central de telefonemas ao vivo e à cores cheia de bocas e dentes, braços e becks e discos de vinil.

acho que havia três anos que não se via a chave da porta da frente - a porta sempre aberta havia se tornado corpo sólido e indesejado, ali encostada poerenta no batente, ficava silenciosa na sua eternidade arcaica. enfim, enfim. o canto dos sapatos estava sempre amontado de pares e pares e a sala de conversa estava sempre cheia de bichas e junkies e poetas fajutos, poetas bons, pseudos-qualquer coisa descalços, às vezes desnudos. Alan era uma boa alma e sua casa era como sua mente, aberta e muito louca, caótica, frenesi. me lembro de sentar e olhar as pessoas que bebiam café demais e ficavam pelas madrugadas prostradas, jogadas em todos os cantos do apartamento, sujando xícaras na cozinha e batendo as cinzas de cigarro nos vasos de planta sem nunca dizer chavões.

a casa toda cheirava a fumaça de cigarro e incenso barato. na hora do jantar a fumaça se misturava a suor humano, se suava muito na casa do Alan enquanto se dançava bebum de vinho, doido de ácido, chá chinês ou sopa. nunca vi ninguém trazer algo além de palavra pra dentro daquela sala e, ainda assim, tudo prosperava. a casa cheirava a cidade e metrô, a gente e passeio no parque (com picnic, cachorro e sorvete). era tudo delirante, como uma infusão de grama molhada, vapores humanos e banho de sais.

nesse hospício, como iniciante, eu só observava em silêncio as grandes figuras. lembro de Waldman e sua barba esquálida, devaneios sobre o nirvana da noite, repetindo seu mantra bhikkhu e bebum, debruçado em balcões no centro ("Mais uma dose, companheiro. Mais uma...") e Joana Johnson, volátil, sentada em posição de flor de lótus, falando sem parar sobre seus melhores novos eternos ídolos da última semana, dedos no ar, emendando uma citação em outra, ainda assim sem entediar e caíndo no chão, esparramada, cantarolando uma canção de bob dylan junto do radinho de pilha que ninguém sabe quem ligou.

e eu ficava lá, olhando os cabelos negros de Alan, seu bigode grosso, sua figura sem camisa sem calça sem sapatos, só cuecas e meias brancas, às vezes um lenço vermelho em volta do pescoço, longos dedos alisando os lados do bigode, ouvindo com a cabeça apoiada no punho ("hu-hum" e um leve chacoalhar de aprovação") e falando como um profeta, um Sidarta moderno da selva de aço, profetizando sexo, exalando letra, inspirando música. ele nunca erguia sua voz judia mansa, mesmo quando lutando pra recitar um poema entre as buzinas e as ambulâncias e os que pediam ininterruptamente um minuto da atenção, ou junkies que queriam uns trocados - ele só falava, bem menos do que ouvia, em cima da mesa, braços abertos. abria um livro e iniciava um sarau. saquê branco, ervas, vinho do porto - maconha, maconha e álcool.

quanto a mim... não tinha nada comigo, só meus ouvidos. ouvi tudo e todos e não sei se aprendi pois, na verdade, não sei se era capaz de aprender. estava ali como ouvinte, como aprendiz de Alan, mas queria que, no fundo, ele me fizesse e me ensinasse o jeito dele, o que nunca seria possível: ele se copiar em outro alguém, o universo não suportaria tamanha façanha. tinha meus pensamentos, poesia instantânea, porém era rápida e rala e sem graça como mioho. tinha medo também e suava medo todo o tempo, materializando silêncio.

então, na louca sala de Alan eu fiquei ao longo dos anos como um móvel: parte intocada, parte presente. 1/4 necessária, 4/4 totalmente esquecível. em longos anos entre poetas desencarnados e corações abertos eu só guardei nos meus bolsos benzedrina e angústia - e consumi ambos, letalmente, em altas doses.

-- Mercedes | 10:21 |

sem título #1

o apartamento me parece totalmente novo.

está certo que não piso aqui há dois anos, mas percebo que nada mudou - talvez a posição do sofá mas, fora isso, todos os básicos permancem como os deixei. você também está diferente: tem uma barba cerrada agora, bem castanha e olhos doces e magoados.

observo a janela e a cidade continua a mesma. você se lembra dos bons tempos em que a cidade possuia arquitetos e dilettantes? astrólogos, bonecas infláveis? não se lembra?

até a memória mudou.

você me traz uma xícara de chá quente, pra espantar o frio. porém, não há frio algum- apenas chove, fazendo uma estufa de ar abafado. caem grossos pingos lá fora, numa sinfonia de gotas sonoras que quebram o silêncio da sala.

acompanham também, aqui dentro, gotas caladas.

essas caem dos seus olhos.

-- Mercedes | 22:53 |

diálogo

- aprendeste alguma coisa sobre a vida no mundo lendo todos esses livros?

- aprendi, mas só o que desafia a lógica. ao mesmo tempo que me formei completamente em Educação Sentimental, me falta prática e volto a repetir várias e várias vezes a mesma aula de Ilusões Perdidas.

-- Mercedes | 22:04 |

passeio noturno

não vejo ninguém na rua. as pessoas de bem dormem seus merecidos sonos de sábado, madrugada, já bem cedo. trabalhadores, escravos, que dão a bunda pra multinacional de segunda à sexta querem um sábado de brilho azul deprimente da televisão, de pequena guerra fria conjugal, partilhando odiosamente os lençóis. não os culpo: o comodismo é a alma do corpo cansado, da rotina falida, do homem moderno.

já vi grandes poetas afundarem na rotina. porém, como não sou nada nem sou ninguém, sento no banco do passageiro calada, cabelo ao vento, olhando o asfalto vazio correndo embaixo das rodas. não vejo uma viva alma e adoro o cheiro dos semáforos vermelhos inúteis, tentando impor uma autoridade broxa aonde, quando baixa o sol, é uma terra sem lei.

e não há gosto mais maravilhoso do que o de salivar. a direção imprudente, ofensiva, perigosa: a velocidade acorda o corpo, a injeção de medo dá o tesão do perigo. passamos raspando por um ônibus e por um momento, sinto a morte respirando na nuca. não há sensação mais deliciosa.

me sinto libertada das pequenas coisas, da minha própria vida e identidade. olho pro lado. vejo o brilho maníaco dos neons iluminando suas pupilas, vejo você lamber os lábios, saboreando a aflição. os pneus cantam, abafando o som do rádio. passo a mão na sua mão, passo a mão na sua coxa. a tensão impera, músculos retesados. o tesão afoga a conversa e acho isso necessário.

então sinto, no correr da brisa fria, o frescor da cidade sem sons. nesse momento de reflexão o silêncio vale ouro, com o palpitar do coração valendo prata. gostaria que a madrugada fosse eterna e que a cidade não falasse nada, nunca, pois aí, sob a luz da lua e das sirenes mudas e impotentes, o mundo seria somente meu e teu.

-- Mercedes | 21:59 |

antiga residência

porém, uma sensação de casa nova.

abro a porta - cheiro de tinta fresca,
as paredes nuas, cômodos sem móveis,
só o chão de madeira embaixo dos meus pés.

exploro passo a passo,
sinto a emoção de adentrar.

redescobrir.

meu coração é novamente meu lar,
só que como uma nova casa,
numa nova rua, mais bela,
com sol pelas frestas da janela.

e volto à velha vida,
embaixo do meu telhado sem eira.

jogo um par de tênis acima da soleira
da porta, no fio de luz à frente,
e deixo lá de lembrança do que foi
nós dois.

-- Mercedes | 14:40 |

poema mínimo que recito pra ti todo dia na minha cabeça

te adoro.

-- Mercedes | 23:27 |

travessa dos poetas de calçada

sento nessa singela esquina,
e escuto no jukebox Elba e Zé Ramalho
e tomo emprestada a poesia do dia

"...quanto ao pano dos confetes
já passou meu carnaval..."


e bebo e cantarolo,
vejo a vida passar.

bar, doce lar.

-- Mercedes | 23:24 |

quarta-feira de cinzas

ando até o bar de ladrilho,
ali ao lado da praça.
ando pra frente, seguindo o trilho
do antigo bonde que já não passa.

sento e peço o prato do dia
e o que vier no prato não me importa.
só quero almoço e sossego,
cerveja, café e cachaça da roça.

contra o sol ajusto os olhos
e observo as garrafas, lado a lado,
formando um bebum mosaico...

e logo do lado do cardápio do dia
não existe mais o papel onde se lia:
"aqui reunem-se pescadores, bebuns,
passarinheiros ociosos
e todas outras espécies de mentirosos!"

mudança dos tempos. como sem pressa.

então, durante o café pós-almoço,
sentada, estico as pernas e ouço
as brisas falarem,
e elas dizem:
"vaaaaaaaaaaai... lááááá"

-- Mercedes | 12:44 |

bombay gin

this is a shout out for all
the ones who get drunk and get down.

don't regret!
the world keeps turning 'round and 'round
and i keep spilling my heart right out.

life is no love, just hands and mouth
and sex and fingers that go south.

thanks for nothing, bombay.
thanks for nonsense, y'all.

-- Mercedes | 01:08 |

incansável

cabeça encostada na janela
trepidando com o balançar do ônibus
troncho na rua esburacada,
que vai, barulhento,
atropelando garrafas.

estrebuchando no ponto,
desço na Lapa e sento no bar.

tomo todas no balcão,
papo aleatório com gente alheia.
e quem se importa?
ninguém se importa, depois de cruzada
a porta do bar.

bebo o dinheiro do ônibus.

então, sem ter como voltar,
sento na calçada -
me roubaram a carteira.

puta merda!
deixa.
e puxo mais conversa,
observo.

vejo os negros de dread,
vejo os japoneses de sampa,
vejo os brancos estrangeiros
e os batedores de carteira.

que se fodam.
estou na lapa e há três dias que não durmo,
de que me vale uma identidade agora?

carnaval da insônia,
carnaval da infâmia.

cochilo ao lado de um prédio iluminado,
cabeça no asfalto duro,
sob um manto de estrelas.

e sonho em conseguir te extirpar de mim
mas ainda te ter, sem te querer.

sonho te agarrar, mas você escapa.
desejo te abraçar e beijar no caos da Lapa
pra só depois cortar teu amor com uma faca.

-- Mercedes | 21:45 |

terça

até quarta-feira de cinzas morreremos de cirrose.

e, enquanto você acha sua festa foda,
sua festinha e seus amiguinhos bizarros
nós estamos lá fora, pelas ruas,
queimando carros.

-- Mercedes | 15:28 |

impressões

é madrugada, ainda bem cedo.
e a bateria já tocou,
o bloco já passou
e o samba?
esse todo mundo cantou

mas os bêbados desatam a cantarolar:
"laiá, laiáááá,
ô, meu amor, não vá embooraaaaa..."
em vozes arrastadas.

e não sobrou mais nada:
só confete e serpentina colorindo o asfalto,
enroscando-se nos meus pés descalços,
pois os sapatos eu perdi lá em Santa Teresa.

perdi tudo mais também.

então volto só com chapéu de palha na mão.
e nessa madrugada bem cedo,
volto! volto pra casa, e trago o pão.

-- Mercedes | 13:44 |

simpatia é quase amor

estou apaixonada pelos meios-fios.
escreverei tratados sobre os meios-fios
e por eles também.

estou encantada pelos gatos,
pelos rapazes, pelas luzes.
estou bêbada - estou beat.
estou pelas calçadas e ruas,
esticando as pernas nas esquinas.

e tudo isso me pertence pois sou pobre!
não tenho dinheiro e não me importo!
há só desapego emanando da alma
e um senso de propriedade do mundo, e a calma.

então me telefone sendo simpático,
me pergunte dos meu planos.
mas não diga que eu te abandonei,
que você sente saudade:

isso não é verdade!
lembre-se de que no meu discurso,
entre os meus lábios e o copo,
sempre haverá um espaço pra você.

-- Mercedes | 15:58 |

sábado de carnaval

passei minha vida procurando verdades
na sarjeta, sem eira nem beira.
e de meio-fio em meio-fio
passei também a sexta-feira.

é sábado de carnaval
e meu bloco ainda não passou.
mas vai passar, vai passar.
o carnaval vai chegar!

não há standart, não há música,
mas haverá.

então, me contento, nesse momento,
com meu corpo cansado,
dobrado sobre a cama
como um defunto enfiado num porta-malas
depois de um milhão de anos
se embebedando.

-- Mercedes | 11:46 |

delayed feeling

as we walk, you grab my hand
and my mouth wants to say
that are real the things we say as pretend.

but my throat closes
and my voice slips,
and i stay quiet in this eternal make-believe.

but i think to myself
(drinking all my money could get:)
"why say anything when,
even if you heart would listen,
my speech would not be enough to explain?"

-- Mercedes | 14:34 |

you rip my heart right out

nunca achei que fosse algo físico
a dor do coração - mas é.

sinto, à noite, entre cobertas,
o apertão forte
(*tu-dum, tud-um*
na garganta, uma ânsia)
como de uma mão fechada.

eterna sístole e
nunca diástole.

-- Mercedes | 14:23 |

devaneios

Eu sento aqui afundada nas coisas da minha mente, atolada até o pescoço na areia movediça que é a nossa vida à dois e você só sabe olhar a janela, lá fora, como uma mocinha que espera achar no trânsito o sentido da vida, olhando o cinza da cidade e as luzes dos carros, porém, gostaria que você soubesse que você é velho e patético e é ridículo para alguém da nossa idade procurar poesia que se concretize do ar. Não é possível você ser tão cego, você ser tão burro que não possa ver que o que te faz me destrói - procuro força pra continuar contigo todo dia, no silêncio do café da manhã, ou agora aqui bem no meio de uma ressaca monstruosa e na fumaça dos dois maços que você chain smoked em 3 horas, tomando toda a cerveja da geladeira (que agora está vazia e sem previsão de ter algo além de gelo por um bom tempo). Mas veja só, como pode, você bebe demais e você fuma demais e não faz nada da sua vida. Você não se preocupa com grana pois, obviamente, eu te sustento e toda sua malandragem, todo seu carisma pilantra e todos os babacas dos nossos amigos, iludidos que acham que você é um grande cara quando na verdade você é um merda, um medíocre.

Olho a figurinha de buda, ao lado da de Kerouac, colados ambos na parede em frente à minha cama. Sento do seu lado e penso como foram esses dois ícones que começaram toda essa merda, o gatilho do tiro nos meus miolos, e coloco minha mão nos seus cabelos e olho sua figura magra: o rostinho confuso, olhos doces e uma voz que soa tão linda nos seus pequenos e odiosos versos, fazendo com que eu me arrependa (quase) de dizer todas as coisas que digo sobre você. Meus pensamentos de te mandar embora amansam e eu sei que não deveria, afinal isso aqui não é nem um relacionamento, é uma farsa, um comodismo burguês que nós pregamos e analisamos com discursinhos anti-burgueses que são tão burgueses quanto ir, no domingo, jantar naquele restaurantezinho da Tijuca com seu pai e sua mãe e vamos nessa, procurando razões pra nos enganar para que isso vá pra frente. Para você funciona pois você necessita da minha energia, me suga e me joga, se alimentando das minhas forças, se divertindo como uma criança ao me ver contrariada, se entretendo como um sádico cientista e seu objeto experimental sendo eletrocutado. Pra mim funciona pois necessito do seu beijo e necessito te odiar do fundo do meu corpo, odiar os seus dedos longos e seus ideais românticozinhos absurdos de terminar a faculdade para se tornar um poeta, de viver itinerante fazendo, como um Sidarta, a sua própria legião de seguidores tolos e jovens com grana pra acreditar na farsa de uma escola cujos professores são poetas desencarnados.

Enfim, necessito de você nessa relação estranha, necessito que você me emputeça com o seu besteirol poético nojento, com suas excentricidades Wilde-like, que você me negue o beijo na cama antes de dormir quando eu preciso de conforto para os meus ossos moídos depois de trabalhar pra te sustentar, como um capacho tolo que sou. Preciso da suas bandas irritantes sempre no meu toca-discos, impedindo que eu escute as bandas que me agradam os ouvidos, e do rio de dinheiro que eu sangro pra que a gente faça as coisas que te divertem e para os livros que você quer que eu leia. Desejo pra sempre o seu amor hipócrita e falhado, sussurrado na madrugada depois de uma noite de sexo insatisfatório, citando frases que não são suas só para o meu agrado mesquinho e enganado, para que eu durma sem sonhos de novo pra acordar no dia seguinte, como sempre, cansada.

Por isso, quero que você me ofenda, para que eu te mande embora da MINHA casa e você volte para aquele buraco que é o seu quarto, pra te ver bater a porta e suas pernas finas enfiadas em Levi's femininos (que parecem mais camisinhas jeans usadas) descendo a rua, apressadas no seu passinho rockeirinho afetado, seu cachecol voando quando na verdade mal faz frio, para eu poder sentar e me embebedar, fazendo resoluções finais à luz da lâmpada de lava, olhando a cara do Kerouac (ao lado da do buda) e me aborrecer com tudo isso, com você e com o mundo pra só depois me desaborrecer duas horas depois, ao tocar o telefone e sua voz cínica me chamar, como se nada tivesse acontecido, com um tom escondido de amor canalha, para sair e sentar em alguma espelunca com comida japonesa porque você precisa comer comida japonesa e que vai levantar meu espírito e bláblá, e que meus ataques são culpa do meu Dharma e todas baboseiras mais e eu me ofendo e desligo na tua cara, mas você sabe que eu vou, e desamarro a cara e pego o casaco e as chaves do carro e vou te buscar.

-- Mercedes | 13:07 |

ao vivo

abro meus olhos pra te encontrar camuflado entre o felupudo tapete branco, descalço, embaixo do sol da janela. os pequenos raios solares atingem minha pele, tímidos porém quentes, e fazem os seus olhos verdes brilharem com uma intensidade cristalina.

tens o violão grudado no peito e murmuras uma cantiga de blues inventada... dedilhas as cordas harmonicamente, sem pressa. o cigarro queima só no cinzeiro, apoiado em seu pacato esquecimento. a fumaça sobe, indo encontrar o PLAC PLAC PLAC das hélices preguiçosas do ventilador.

sua pele morena rejuvenece a cada minuto. sua voz ecoa num sussurro amoroso. não entendo como vai a letra, mas fala algo sobre viajar e deixar tudo pra trás. estendo meus dedos e toco sua barba, movendo-os até deliner seus lábios. tampo-os, em sinal de silêncio. impeço a canção de escapar da sua boca.

acho que, no fundo, tenho medo de que, ao sair da sua alma e encontrar a janela aberta, o sentimendo vá embora e não volte mais.

-- Mercedes | 00:35 |

férias

a gente bebe demais
e fala demais
e tem tempo livre demais

falta grana,
faltam programas...

nossos amigos?
estão viajando!

tenho
muito tempo pra pensar nas pequenas coisas.

e isso faz o mundo deveras
irritante.

-- Mercedes | 00:14 |

no final

não havia me sobrado nada
(além da minha própria solidão)

-- Mercedes | 23:56 |

gêmeos

penso constantemente nessas coisas existenciais na intimidade do meu banho, enquanto lavo os cabelos pra sair no fim da tarde, escutando versos de Sufjan Stevens - "all things go, all things go...". Começo o pensamento debaixo do chuveiro e continuo, enquanto me dirijo à casa de um amigo para uma noite de vinhos e filmes e depois mastigo mais e mais os mesmos versos, bem no meio da festa, na sala de estar, na feira de vozes e sons que se circulam pela madrugada.

todas as coisas se vão, certamente. superei o medo da morte faz um bom tempo, mas no momento às 17:47 que me enrolo na toalha, penso no que deixarei para o mundo. aí penso na inutilidade da minha existência. realmente, pensem: o que deixarei? de que me valeu uma vida rodeada de amigos e sendo a melhor pessoa possível, a pessoa mais engraçada? um funeral lotado e creio que só.

mas não pensem que me coloco pra baixo pensando tal coisa: não o faço. acho ótima a minha vida de vagrant pelos interesses do mundo, uma não-linearidade excêntrica, diletante eterna, amorosa e intelectualmente - como uma eterna pilantragem. não faria diferente nem um só segundo. às vezes até gosto de passear pelo meu lado egocêntrico e elogiar maniacamente as pequenas coisas que considero qualidades de mim mesma, como esse desapego que acabei de citar. não faz mal nunca.

só que sempre volto à dualidade. por exemplo, enquanto mastigo vorazmente as páginas de um novo livro, penso: "que coisa grandiosa, que maravilhosa obra!" e vario meu humor de acordo com a temática dela: me sinto espiritual ou bum ou triste ou violenta ou qualquer outra coisa. me integro. porém, depois de um tempo, abandono os ensinamentos de tal obra e parto camaleônicamente para uma nova personalidade literária e penso: "de que diabos me adiantou ler o livro anterior?"

essa é A única pergunta frequente, na verdade. onde é meu lugar? para que essa bagagem cultural? serve para que, citar meia dúzia de assuntos em uma conversinha na mesa do bar? bem, sei que ao menos um deles me serviu, obviamente, para encontrar o bordão de minha vida. faço de Kerouac minhas palavras quando cito: "Não tenho nada pra oferecer além da minha própria confusão."

e nessa confusão complexa de achar meu lugar ao mundo, deito a cabeça no colo de minha mãe e divido minhas neuras. mamãe, pobrezinha, tenta remediar, mas não adianta. me reduz a um verso de Augusto dos Anjos. culpa a má influência do zodíaco pelas minhas neuras quando diz "deixa disso, menina. isso é coisa mesmo de geminiano..."

-- Mercedes | 15:06 |

erotische

a noite esconde
na cortina de fumaça de cigarro,
na luz estroboscópica incessante
e no cheiro de perfume nauseante
os rostos, os sexos e as verdades.

um mar de suor, pernas e braços
e lábios alheios.
à noite só encontro amor, ilusão e arte.

amor de um amigo,
amor de uma garrafa,
amor de uma prostituta, de um garoto,
de uma garota - amores que passam.

porém todos os amores são ilusões:
ilusão dormente de um conhaque,
ilusão maníaca de uma pílula,
ou ilusão de que o verdadeiro amor se afogará
na distância...

e que na confusão de sons e cores,
a noite se acabe no ciúme
e na promiscuidade!

que perfeitos estranhos se encaixem:
meninos, meninas, junkies,
bichas, góticos, turistas.

no fim das contas, a noite esconde
a arte de viver do submundo:
nos banheiros imundos
todos os jovens engolem
e inalam.

-- Mercedes | 19:17 |

when i move in...

if home is where the heart is
then i am currently homeless.

well, let's put it better:
i'm in a transitional phase

-- Mercedes | 13:04 |
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