Junho 27, 2006
nighthawks
(before starting, please visit
http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Nighthawks.jpg)
i had never before felt so alone, yet so at home like I felt in new york city in nineteen forty-nine.
as I sat in phillie's diner I thought about loneliness. I was alone in the middle of these people, i was lonely. life seems really really long when you're lonely. i think about my condition.... how I can see her everyday, talk to her everyday and yet still fell like the most lonely and miserable person in te whole fucking world. yet, I felt resigned, like my whole life had been this way and there was no other future and, thinking like this, it didn't feel so bad.
so, i light up a cigarrette while drink the rest of my coffee. I ask for a refil. the bored waiter serves me another cup. I pay the man the two cents he deserves. i look at the couple sitting next to me... they stare at nowhere, sipping at their coffees too. i wonder what such a beautifull couple is doing in this hell-hole joint at 2 am. i am sure they are not here for the tastless, greasy coffee. maybe I should ask them, make conversation will make me feel better. maybe. I better not.
i keep staring, they don't mind. actually, i think they don't see me. they are way too absorbed in their own thoughts. I see the fine irony that hangs in the air of this diner: the couple is there for one another yet, they are more alone than me. maybe they broke up, maybe they are about to break up.
i no longer care. i already got the epiphany of the night - i finally believe what people say: there is no greater way to miss someone than to be standing right next to them knowing they are no longer yours.
posted by Mercedes |
10:07
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Junho 26, 2006
falando, mais uma vez, de birita
noite fresca
em santa teresa
os amigos, que beleza,
jovens e
a cerveja estupidamente gelada
'bar do mineiro'
cachecóis e boinas
meninos e meninas
à conversar...
e o 'simplismente bar'
à meia luz
da meia-noite
passa o último bonde
mas eu fico com medo de entrar
mais uma cerveja,
mais uma só...
pra quebrar o gelo
e contar as melhores histórias
pra fazer rir os amigos!
tantas noites
construíndo desmemórias...
(desmemórias sim
porque vamos beber demais
e não lembrar de nada amanhã pela manhã)
posted by Mercedes |
23:01
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Junho 24, 2006
às vezes, o silêncio é ouro
nossos momentos de silêncio
são companheiros -
nunca desconfortáveis -
porém, conforme variáveis,
podemos nos desentender
sem mais e sem porquê
mas não importa
depois você
me perdoa e ficamos em paz
e sem mais
demora
vamos embora para a vida
e no frio da noite,
na última mesa do bar,
eu te observo bocejar e
estalar os dedos dormentes
e isso me lembra, novamente,
que você é humano
também
última cerveja,
última chamada.
nossa longa estrada
é só de ida.
não são necessárias palavras:
o seu olhar me fala
se você tem tédio ou está feliz
com as mãos firmes no volante
você me olha por um instante
e eu posso entender que você diz:
"só você me basta, amiga,
estou feliz que estamos a sós."
e assim construimos nossa amizade
com todas essas coisas não-ditas
entre nós
posted by Mercedes |
15:08
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Junho 20, 2006
esse é o nosso namoro estranho
com "eu te amo" pelo telefone
e até, as vezes,
com troca de nome
por um de outro alguém
duas pessoas da nossa idade,
cada uma de um lado da cidade
brincando de se evitar...
... evitando se encontrar
às vezes no mesmo prédio, no mesmo cômodo,
mas preferindo não se falar
(sabe como é... para não incomodar)
sozinhos na metrópole lotada
entre pessoas que vem e que passam
brincando de encontros e desencontros
sempre
lost in translation
sentados, no sofá da sala,
sem olhares, sem palavras,
cada um na sua.
fazia uma semana que não te via
até que outro dia
te vi do outro lado da rua
no ponto de ônibus.
fingi que não te vi
(se bem que quase não te reconheci.)
e passei direto sem cumprimentar
sabe como é...
pra não incomodar...
posted by Mercedes |
22:44
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Junho 18, 2006
você diz que me ama
que me adora
que vai sair porta afora
se eu não gostar
de você.
diz que comigo quer estar
mas, quando vê a barra da saia dela,
desfilando em meio a festa,
você corre pra lá
pra ficar de olho,
pra ficar mais perto.
e se morde de ciúme
de ela dançar com outro.
e o povo todo nota
que eu estou só.
e eu vou pro bar
me embriagar.
fazer o tempo passar.
mas você só volta no fim da festa,
pra me buscar
falando que eu dei vexame...
olha lá.
vexame você quem dá
quando se morde de ciúme
por ela que nada quer.
e quando se joga,
sorri à toa,
torcendo prum dia ela recomeçar
a te notar.
não adianta ter vergonha,
me esconder dela,
com medo de ela magoar.
ela não se importa,
deu com a bota
na tua bunda...
e você, otário, acredita
que ela ainda gosta
e que um dia vai voltar.
pode sentar e esperar.
senta... e chora!
posted by Mercedes |
22:37
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vagabundos iluminados
vamos partir pra uma viagem
entre amigos
festas esquisitas
sem tédio
sem sermão
sem ressaca
só gente nova
muitos cigarrettes e birita
bancos de couro de carros
e amassos
(com coringas gostosos e sarados).
trabalhos temporários.
espeluncas pra festas instantâneas e
hotéis pulguentos pra passar a noite
(tentando dormir. ou não - quando acompanhada)
café preto sem açúcar ao meio dia,
cerveja choca no café da manhã.
show de punk rock
rádio mal sintonizado.
pneu furado no meio do deserto
uma garrafa de scotch pela metade
carona com caminhoneiro simpático
de bigode handlebar
vamos partir numa viagem
só entre amigos
sem tédio
sem responsabilidade
só Kerouac e 1979
polaroid.
jeans rasgado no joelho,
terra e areia no cabelo,
e uma mochila que não vale nada.
pra quem não sabe o que fazer da vida:
aproveite o dia
e vamos cair com pé na estrada
posted by Mercedes |
21:27
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ponto final
textos atemporais,
poemas espalhados,
pequenos versos
escritos nos cantos das páginas
dos nossos livros de matemática
todas essas palavras,
saídas da ponta do lápis,
rabiscadas...
nunca disseram nada
foram só grafite e papel
atritados
uma ciência exata
mas não te lamentarás
não me lamento mais
chega de exclamações
e parágrafos
dou ponto final
mesmo ainda com os pés descalços
canelas roxas
e joelhos ralados
de parar e chorar.
nada mais a lamentar.
nunca mais.
posted by Mercedes |
21:17
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Junho 13, 2006
último pensamento (idiota) da noite
as entrelinhas que eu sempre leio (porém, que nunca estão) são as coisas que me matam.
posted by Mercedes |
01:14
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quero v i a j a r
feriado. chuva. cidade vazia. tédio. bebedeira? pede.
posted by Mercedes |
01:14
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não é pra fazer sentido algum.
é de noite. volto do show pra uma casa vazia e gelada. cantarolo as canções, os melhores pedaços... voz de bêbado do amarante, as sílabas esticadas. lindos versos, românticos, solitários.
o gato me observa com seus olhos verdes, na meia luz da luminária, pupilas dilatadas. me olha por longos momentos, bigodes franzidos, como se tentasse decifrar algum grande mistério felino. deita a cabeça sobre as patas e não se move. companheiro silencioso de longas noites e bobos textos aqui digitados.
cantarolo mais canções. casa pré-fabricada. sentimental. retrato pra iaiá. coloco pra lavar as roupas molhads de banho de chuva. cheiro de suor, bebida e água da chuva. penso idiotamente, sei lá porque, em perdas e ganhos. hoje é dia dos namorados, mas pouco me importa. as perdas e ganhos são os pequenos fatos REALMENTE importantes que, quando colecionados, fazem a vida. nossos retalhos.
o que ganhei? o que perdi? os amigos que vem e que vão. os amantes, os namorados. hoje são os melhores, amanhã estão ausentes. hoje viajaram, amanhã estão de volta. rachel, bia. livia, charles... carlos henrique, por onde será que anda?
o mundo dá voltas. quem foi meu não é mais. quem amei? quem vou vir a amar?
se não tenho mais, porque perdi? foi culpa minha? do tempo? dele?
eu vou dormir pensando que faço o meu melhor. talvez não faça. provavelmente sou chata e insistente. amarga, pedante, hipócrita. o importante é que eu continuo vivendo. por bem ou por mal ando minhas longas calçadas, encontrando e desencontrando um milhão de pessoas. não posso mantê-las pra sempre. elas vão... me entristeço, mas elas voltam. graças a deus voltam (com certa frequência). o mundo nunca é só.
se ficar solitário, estão só a um telefonema de distância. uma visita, tão curto espaço. tempo gasto pra chegar, tempo ganho do estar lá, junto. faço o que posso pra estar o tempo todo, quando me querem ou não. vou tentando, tentativa, acerto e erro. 50% de chance, tentado ao menos ver, por mais da metade do tempo, o copo pela metade cheio.
posted by Mercedes |
00:42
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Junho 11, 2006
inventando
"até amanhã eu vou ficaaaaaar
e fazer do teu sorriso um abriiiiiiiigo"
é o que toca nesse momento na minha cabeça. eu lembro de você. não que seja anormal lembrar, penso em você e no seu abraço a cada instante. lembro do som da sua respiração rítimica e calma no meu ouvido, do som majestoso da sua voz, como o cântico dos anjos, ecoando em tom grave nos corredores vazios da sua faculdade.
trocávamos beijos e abraços escondidos sob o olhar complacente e imóvel das estátuas. o fundador do prédio, seu bigode grosso e austero, porém seu olhar doce e pacífico. ele não opina mas também não reclama.
o seu coração batia forte como um tambor. eu me lembro de estar nos seus braços, aquecida por aquele seu suéter vermelho. velho suéter duas vezes mais usado que o recomendado. lembro de repousar a cabeça no seu peito, te embalar no meu abraço magro, lembro do seu queixo apoiado no topo da minha cabeça, do seus dedos enroscados no meu cabelo. carícia suave.
lembro. lembro. lembro. só fico a lembrar. que saudade de você. faz mais de um ano. sobraram nas minhas mãos as páginas do diário, as fotografias amareladas. mas o que eu podia fazer? não podia sentar e esperar, como uma foto, em perfeito preto e branco. eu sentava e via o tempo passar.
ironia. hoje sinto que continuo só vendo o tempo passar. duas vezes mais lento agora. mas que falta você faz!
lembro de dedos entrelaçados, pequenas promessas e outros gestos românticos... mas fico na dúvida se estou relembrando mesmo ou se estou misturando o que é sonho e o que é realidade. lembro da pequena coleção de sonhos que recolhi na janela do seu quarto. lembro da última vez que te beijei, que ouvi o som da sua voz. tremo na base da espinha.
lembro novamente das estátuas, congeladas e frias naqueles corredores mal iluminados. são minhas melhores lembranças. imóveis estátuas que não sentem o passar do tempo, não envelhecem.
o amor acabou. a faculdade ficou, concreto e estátuas.
frias estátuas.
foram as únicas testemunhas do nosso amor.
posted by Mercedes |
20:00
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De Liberace (levemente bêbado) para Livia Maria
take your hands
off your pants
girl, that's not love
girl, that's so gross
take your hands
off your pants
i know that that gigolo you hired
makes your pussy on fire
but girl, take your hands
of your pants
that's not right!
but well, that's your fault
and not mine
posted by Mercedes |
00:28
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Junho 9, 2006
Marcos
Marcos não sabia certamente o que procurava mas sentia no coração que teria certeza em reconhecer quando encontrasse. Ele olhava pelas prateleiras empoeiradas da biblioteca pública com olhar vazio, passando os olhos pelas capas coloridas mas sem realmente registrar nenhum autor nem título. Depois de corredores e mais corredores vazios, cansou-se e sentou numa das bambas cadeiras plásticas da sala de leitura. Aquelas cadeiras já tinham vivenciado muitas histórias e com certeza já tinham visto tempos melhores: o vermelho da pintura estava gasto e descascado, as pernas estavam enferrujadas e calçadas com pequenos pedaços de papel para impedir de balançarem, mas nada disso era desconfortável para Marcos. Ele, depois de tantas tardes, havia se acostumado aos calombos dos assentos, pensamento concentrado nas páginas dos livros.
Mas hoje ele não conseguia se concentrar. Nem ele mesmo sabia o porque, visto que tinha um gosto muito amplo e uma mente aberta: se adptava a qualquer leitura, qualquer autor, sem preconceito. Porém, desde que tinha acabado seu último Bukowski, ele estava simplesmente sem idéia de qual seria sua próxima leitura. Nenhum livro lhe causava "a sensação" como os outros que ele havia lido ali haviam causado. Aquela biblioteca, para ele, era seu refúgio e paraíso, era um lugar seguro aonde ele podia fugir do agito do centro da cidade e se deliciar perdendo tardes e mais tardes entre obras da literatura. Era um lugar mágico - cada vez que ele acabava um livro, ia simplesmente andando pelos corredores até que outro livro o atraía, "o chamava". Ele acreditava nesse seu sexto sentido e o mesmo, até hoje, nunca havia falhado. Mas hoje ele estava sem sorte... nenhuma leitura o havia chamado.
Ele se sentia solitário... porém, apenas por um instante. Nenhuma leitura o havia escolhido mas uma mulher havia sentado na cadeira vazia da mesa ao lado da sua. A biblioteca não estava cheia - haviam muitos lugares vazios pra ela sentar e poder ler com mais privacidade. Olhou intensamente para a figura feminina, tentando decifrá-la mas, ao mesmo tempo, de maneira discreta, sem incomodá-la. Olhou-a de cima abaixo, silenciosamente, como um gato avaliando o pássaro na sacada, e constatou que ela era magra, cabelos negros levemente ondulados, uma pele morena como de uma mexicana. Não tinha como avaliar o rosto ou o olhar porque ela olhava fixamente para o livro à sua frente. Porém, ele não estava conseguindo ser tão discreto como intencionava - seu olhar fixo na menina incomodou e as costas delas ficaram tensas imediatamente. Se virando para olhá-lo, seus olhares se encontraram e ele sentiu o que podia só ser descrito como "fogos de artifício": algo no brilho daquele o olhar o gelou e depois o esquentou de uma maneira tão brusca que ele só pode se tremer.
Era o que ele, mais tarde, chamou de "the looks". Vendo a reação dele, a menina não pode deixar de sorrir de leve. O sorriso dela guardava lindos dentes, os lábios uma mistura de frescor e mistério. Ele pulou a cadeira vazia que os separava e olhou o título do livro - era "A mulher mais linda da cidade" de Bukowski. Dando uma pequena risada da coincidência do destino ele não pode deixar de comentar: "Que título mais apropriado". Ela sussurrou em réplica: "Você está flertando comigo ou que?". Nesse momento ele pensou *suave, Marcos... muito suave...* e ela voltou a falar:"Não que me incomode, mas é que você nem ao menos disse seu nome. Me chamo Mercedes." e ele disse: "Mas que lindo nome... Me chamo Marcos. É um prazer. Enfim, não era bem um flerte apropriado, é que eu já li esse Bukowski, éumdosmeusautoresfavoritosnaverdade..." ele balbuciou, apressadamente. Estava nervoso. Nunca havia encontrado uma musa assim fora das páginas dos livros. Ela enfim quebrou: "Quando você fala rápido assim, os humanos não conseguem te entender."
Que linda situação! Ela era linda... inteligente, bom gosto, com humor inteligente para piadas. Mercedes. Ele se desculpou, meio que timidamente, passando a mão pelos curtos cabelos castanhos e se sentiu como um garoto ao lado de Mercedes. Ele era obviamente uns 6 anos mais velho do que ela mas ela parecia bem mais madura no seu controle emocional. Quando ele se deu por conta, estava à minutos calado, olhando para um ponto perdido na parede ao fundo. Mercedes olhava pra ele, rindo suavemente das bochechas vermelhas de embaraço dele. Quebrou o silêncio que ele parecia não conseguir e falou: "Vamos, garoto. Está ficando frio e podemos conversar em voz alta em algum café."
***
Sentaram-se no café da esquina e pediram dois expressos simples, bem quentes. Bebericaram em silêncio até o ponto em que ele, mais confiante, disse: "Mercedes, isso pode parecer abrupto, mas você me encanta. Não quero ser rude nem nada mas a sua pessoa me fascina de tal maneira... e olha que eu te conheço não faz nem uma hora." Mercedes riu e falou: "Fico encantada, obviamente. E um pouco assustada. Gostei da sua pessoa... não com esse encanto levemente psicótico, mas em algum nível."
Haha, ele riu. Estava sendo meio psicópata mesmo. "Me desculpe pela parte da esquisitice. Mas é que você me deixou sem palavras. É estranho, Mercedes... estranho demais. Você acredita no acaso?" e ela, respondeu, engolindo o último gole de seu café. Ela, sorrindo um sorriso fino, respondeu: "Não, mas acredito no amor."
E com isso levantou-se, deixando sua parte da conta e saindo porta a fora. Na cédula de dinheiro, bem no canto, o boquiaberto Marcos leu "Mercedes - 555-7896". Ha! Ele estava apaixonado.
***
Ele não teve nervo pra esperar nem um dia completo. Agarrou, em meio a madrugada, o telefone e discou desesperadamente o número. A nota estava toda amassada e mole, visto a quantidade de horas que ele passara tirando e recolocando-a no bolso, decidindo ou não se deveria telefonar. Decidiu que sim, mas isso era mais ou menos duas da manhã. Mercedes atendeu o telefone alarmada, na voz uma mistura de sono e surpresa. Ele só pode sorrir do outro lado da linha, imaginado o quão bela ela devia ser adormecida. Sua voz, definitavamente, ficava ainda mais adorável rouca do sono.
"Alô."
"Ai, ai, ai. Cada minuto que passa... você fica mais e mais psicopata!" e partiu Mercedes numa sonora gargalhada.
"He... me desculpe... é que depois de sua saída triunfal... fiquei abismado!"
"Achei que ficaria. Precisava adicionar um pouco de drama as coisas. Ao jogo."
"Jogos... aviso logo que não gosto de perder mas também admito que, muitas das vezes, não sei jogar."
"Te ensinarei, jovem gafanhoto... te ensinarei"
E conversaram sobre gostos de música, filmes e livros e outras coisas mais. Flertes leves e tudo mais naquela estranha hora da madrugada até que, depois de um bocejo gigantesco, Mercedes percebeu que era cedo demais pra estar acordada e disse que era pra ele encontrá-la a tarde, na Horseshoe Tavern, para um chopp e conversa normal. Desligou e foi dormir.
Ele, ao contrário, não dormiu nada. Procurou todas as bandas favoritas dela, os livros, escutou de tudo e se informou, aprendeu. Esperou a manhã passar suando frio, contando horas e minutos. Foi, mais tarde, para a taverna dando pulinhos de alegria sem ao menos dormir.
***
Se encontraram para cerveja e conversa. Depois de umas e outras, estavam sentados lado a lado.
"Então, meu jovem aluno, aprendiz dos jogos... Vejo que você fez o seu dever de casa. Pesquisou os meus assuntos favoritos, está fresco e informado."
"Sim, sim. Aprendi tudo. Não queria vir hoje aqui e novamente fazer papel de palhaço."
Mercedes gostava de seus futuros amantes assim: esforçados. Esse estava sendo, de longe, o mais interessado. Havia aceitado ser a argila crua nas mãos de Mercedes e ela agora havia modelado-o ao seu gosto, ao seu bel-prazer. Ela sempre acabava dobrando-os de certa maneira, ajustando-os todos ao seu jeito, mas esse estava sendo diferente. Mercedes quase podia acreditar que seria diferente com esse jovem menino, visto que ele ainda tinha aquela inocência nos olhos castanhos que ela seria incapaz de quebrar.
Ele, com certeza, falava a verdade quando disse que não sabia jogar. Mercedes estava acostumada a tipinhos Smooth Operator, que vem e vão, dizem o que querem, jogam o jogo dela por prazer de serem controlados... e depois, ela os larga e eles choram, mas choram lágrimas de crocodilo pois, se Mercedes não puxasse a corda eles, um momento mais tarde, a puxariam.
Mais uma partida havia começado. Cada vez que essa armadilha estava pronta, Mercedes sentia um fogo frio, uma ansiedade nos fundo de seu peito. Era uma vontade de prazer estranho, quase psicopático, de conquistar e destruir, de partir corações alheios em todas as cidades que passava. Era parte da satisfação, do modo de viver dela.
Enfim, Mercedes saiu de suas divagações e percebeu que, nesse meio tempo, ele havia se acomodado a ela de uma maneira muito apropriada a postura de suas ações: havia sentado na cadeira ao lado da dela, passando um braço em volta do ombro seu ombro e juntando o lado do seu corpo ao lado do do dela. Muitíssimo apropriado. Era quase como se ele, por osmose, fosse absorver e entender o que era Mercedes, sua personalidade.
A verdade era uma linha muito subta para Marcos: ele não sabia que se estava apaixonado por Mercedes ou perplexo. Estava definitivamente apavorado. O jeito dela de falar tudo sobre sua vida mas ao mesmo tempo parecer que não havia falado nada. Ela tinha uma áurea de mistério que o confundia e atraía, como uma mariposa era atraída por uma lâmpada. Era morte certa, uma parte do cérebro dele já dizia, mas ao mesmo tempo era um fogo apaixonante e macio. Ah, deixa estar.
Ele, naquele abraço, ouvia ela falar... ela contava a ele as histórias de suas viagens pelo mundo, os empregos, as visões. Era fotógrafa amadora e viajava o mundo sem compromisso. E falava de todos os assuntos... Ele escutava. Ela beijava-o como se namorassem a anos, naquela estranha intimidade que fora criada. Ele SENTIA a mesma coisa, por mais que tivessem se passado apenas dois dias numa relação fragmentada.
Depois de um beijo maior eles sairam dali pra andar pelas ruas da cidade. A noite tinha caído e eles andavam com o vento contra o rosto. Andaram até a praça central onde Mercedes, depois de 30 minutos de caminhada silenciosa, falara: "Estou mudando de cidade, meu querido. Foi um prazer poder te ter comigo tão próximo mesmo que por tão pouco tempo." E deu nele um beijo suave, com gosto de cerveja e canela, como se aquele gesto de despedida fosse um hábito.
O coração de Mercedes pulou em júbilo. Seu prazer de partir mais um coração e poder fugir antes de ter que encaras as consequencias havia sido um sucesso. O olhar de decepção de Marcos causava nela um pequeno remorso, mas ela olhou pro outro lado e tentou esquecer. Ele sentiu-se traído, mas não perdeu a compostura: no fundo no fundo sua consciência o havia preparado e ele se sentia tranquilo.
Ela então entrou num taxi e partiu. Numa comodidade estranha, ele acenou, como se estivesse acostumado a tal fato. Sentia como se fosse um viúvo de um casamento de 50 longos anos... tantas lembranças, tantas histórias. Porém, ao andar até o fim da rua até seu quarto de hotel, sentara-se na cama e pensara que aquele último beijo fora, retirando-se as máscaras e sensações criadas pela paixão, o exato beijo que partilham dois amantes por carta ou marido e mulher pelo tédio afastados.
Fora o beijo partilhado, exatamente, por dois perfeitos estranhos.
posted by Mercedes |
18:24
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Junho 6, 2006
R.
grande menina. se diz durona, mas é deliberadamente emocional. na hora difícil, oferece um ombro amigo sem pestanejar mas, no final, acaba chorando mais que o consolado. muito sentimental.
tem um grande coração, sempre aberto. já fiz desse coração muitas vezes minha própria casa. ela esteve lá por mim, num abraço de afeto, numa palavra de ânimo quando me foi necessário. sempre foi um grande abrigo. espero poder ser, no mínimo, metade tão boa e prestativa quanto ela me é.
até nos meus dias mais introspectivos e nebulosos, ela veio ao meu encontro, bateu na minha porta e trouxe amizade.
todos esses nossos anos na estrada, todos os lugares que passamos, nenhuma briga, nenhuma tristeza, nenhuma curva virada errada. cada espelunca mais escabrosa, cada enrascada! não importou, você nunca abandonou o meu lado...
é todo esse seu patrimônio, seu presente e passado. seu futuro te espera, tão brilhante e completo. espero não te ver presa mais nas tristezas, nas pequenas armadilhas que nossa própria mente nos prepara. essa melancolia não merece nem um só minuto do teu tempo.
R., espero estar ao teu lado (talvez até um pouco egoistamente) me aquecendo nesse teu calor vibrante e na tua conversa eloquente que é capaz de transformar qualquer casa alugada em um lar.
posted by Mercedes |
00:25
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Junho 5, 2006
Barbosa
ele era um garoto simples. gostava de passar desapercebido, sem estardalhaço. glamour, fama, reconhecimento público - nada disso o apetecia. mas de nenhuma maneira ele era entediante. era muito inteligente de todas as ciências, bem cotado nos círculos intelectuais: o que nunca fazia ele sentir-se solitário. talvez fosse sim pensativo e um pouquinho melancólico, mas essas eram as características que o faziam charmoso e deliciosamente genial.
seus amigos ele contava nos dedos - eram poucos, mas eram bons. fiéis. estavam lá para o nosso jovem rapaz em qualquer situação... esses bons amigos acompanhavam-o desde a infância e não era possível negar o valor inestimável da presença deles - mas, depois de todos esses anos de convivência, a amizade infelizmente havia caído num comodismo confortável, numa rotina desinteressante. O rapaz sentia falta de alguém disposto, alguém novo que viesse trazendo as partes do mundo que sua inteligência sempre matemática desconhecia: os caminhos do coração.
sua falta de experiência no amor não fora causa de problemas nunca até o final de sua faculdade. ele, na verdade, sempre fora muito prático. sua vida de análise científica exigia resultados rápidos e isso moldara sua personalidade um pouco frugal no campo dos sentimentos. isso, claro, até o dia depois de sua formatura.
naquela manhã ele acordara internamente diferente. era estranho não ter que levantar e estudar, olhar para cara de professores enrugados nos seus terninhos de tweed, andar pelos corredores brancos e desinfetados, nem sentir o cheiro de mofo no concreto úmido da cafeteria. ele estava livre de responsabilidades. estava completo na sua ciência, diplomado. seu cérebro sabia tudo de tudo e suas pernas estavam ansiosas pra novos mundos conquistar. ele podia quase se sentir vagando pelas páginas de John Fante. por um momento ele perdeu sua calma científica e abriu a janela, gritando "eu sou arturo bandini!", revivendo o clássico "Pergunte ao Pó". tomou o livro, colocou-o numa mala com meia dúzia de outros pequenos pertences e partiu rua afora, pra sentir o gosto do mundo.
seu cérebro matutava, o sol corando as brancas bochechas. aonde procurar essa nova ciência? o que fazer quando encontrá-la? testá-la? impossível. isso o deixava preocupado, não poder analizar, dissecar essa nova experiência... mas sua curiosidade falava mais alto. ele nunca, por simples medo aceitara o fracasso sem lutar.
ele andara, resolvido, até a estação do trem, no limite da cidade, observando o quanto tudo havia mudado enquanto ele estava na faculdade. olhando melhor, talvez ele tivesse passado um pouco de tempo demais dentro de bibliotecas e de seu dormitório. havia novidade demais nas pessoas que ele havia falhado em notar ao longo desses anos. as novidades da tecnologia ele sabia todas - uma pena, visto que ele não podia se apaixonar por uma máquina.
mas agora aquilo ia mudar. ele podia sentir, debaixo da pele, um calor, uma virada em sua sorte. "seu destino está fadado a ser extraordinário", já diziam desde que ele era uma criança e ele nunca pode acreditar mais nessa declaração. seu destino estava prestes a encontrar algo perigosamente fantástico.
o trem estava lá, quase como que esperando sua chegada. a penúltima passagem fora a dele, no penúltimo minuto para o embarque. ele nunca acreditara em magia antes - era ilógico e irregular demais - mas hoje era o dia da sua mudança.
último minuto. última pessoa entra. o trem anuncia movimentar-se. a sorte fora boa demais com ele, tanto que ele quase não podia acreditar. a magia em pessoa sentara-se do seu lado. uma linda morena mexicana, com cara dos anos 30 e toda aquela graça. "tanta sorte, boa demais para ser verdade" - ele pensara, silenciosamente.
ele tentara então provar dessa sua sorte. começou a balbuciar, sem sucesso, uma apresentação; mas sua mente estava tão alarmada que ele não conseguia nem lembrar do próprio nome. 'a sorte' deu um pequeno sorriso, gentilmente achando graça da timidez dele. "acalme-se, rapaz. não me chamo sorte. me chamo Mercedes", ela falara. sua voz era como a dos anjos e seu sorriso era largo agora, lindo sorriso que estendia humor até seus brilhosos olhos castanhos.
"Barbosa. imenso prazer em conhecê-la". nunca fora assim antes. nunca, em ocasião nenhuma, ele havia conhecido alguém tão alerta e calorosa. ela sentara-se ao lado dele por apenas 5 minutos e ele já havia perdido todo o tédio que ele nem sabia que havia sentido em todos seus anos de vida. ele se sentia vivo, sangue vibrando junto da melodia da voz dela. ela falava cantando, seus lábios rosados formavam uma potente metralhadora de assuntos, incansável e nunca tediosa. o corpo pequeno dela acompanhava o falar e ela se mexia, encantando-o e deixando-o paralisado.
ela era movida por paixão. paixão pela vida, pela novidade. ela lhe contara que estava ali, fugida de casa. trazia apenas uma pequena mochila com duas mudas de roupas, 200 dólares e uma surrada versão de "On The Road" de Kerouac. estava caíndo com o pé na estrada, procurando se perder para se encontrar. ele disse que estava encontrado demais na vida e procurava, justamente, se perder. parecia um encontro orquestrado pelos céus.
realmente. aquela viagem seria longa e promissora. o florescer no coração de Barbosa havia satisfeito o estranho espaço que a escola nunca pode preencher. Mercedes estava ali agora, pra tomar o domínio dos sonhos e do corpo do jovem garoto. ele estava pronto para mudar. estava completo... só agora, depois de ter visto sua cidade ficar para trás na estrada e o brilho da sua amada lua cheia refletido nos negros cabelos de Mercedes que Barbosa havia aberto mão do seu cargo de especialista da ciência para abraçar, com fervor, a nova posição de estudante do amor.
posted by Mercedes |
22:03
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Junho 4, 2006
street justice
pequeno príncipe
do luxo ao lixo
deposto do seu trono
forçado a se tornar povo,
disse adeus ao caviar
pra ir morar
no conjunto habitacional.
ghetto do Bronx, New York.
violência, vício e muito sangue.
tentou ser gangsta, tentou ser hustler
mas gangues não dão chance
pra garotos brancos.
pequeno príncipe
era apenas um garoto
já quase morto
quando foi espancado
por traficantes de ruas.
sem chance de sobreviver.
magro, muito alto,
tímido e desajeitado,
seus lábios de veludo beijando o asfalto.
vivendo pra morrer
sem saída, na esquina,
viciado em cocaína,
foi abordado por um cafetão.
pra sustentar o vício,
entrou pra profissão.
agora seu lindo cabelo loiro
está sujo e oleoso.
seus olhos azuis não refletem o amanhecer:
são apenas chapados olhos de michê.
o que vier é lucro.
carros de gordas casadas deseperadas
ou de velhos ricos e viados:
humilhação por qualquer trocado.
nos becos sujos ele se encontra só:
chove muito e ele espera um carro parar
ou um crioulo bicha passar
pra oferecer sexo em troca de pó.
fresh prince,
lutando contra o destino nas avenidas ruins.
não chora mais a noite, desiludido.
está resignado e resolvido
no seu reino absoluto:
nas ruas de nova york ele é novamente príncipe -
príncipe dos prostitutos.
posted by Mercedes |
22:57
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welcome to the bad avenues
Poliana
anda
de casaco preto fechado,
fechado até a gola.
caminha lentamente,
pelas paredes de muros pichados
de punhos cerrados e
olhos vidrados,
procurando uma próxima vítima
pelas ruas vazias da cidade.
cidade do pecado.
Poliana era doce garota
otimista
positiva
de vestido florido
e rodado.
se mudou do campo
pra cidade do pecado
foi espancada
e abusada
na primeira esquina,
na primeira semana.
Poliana
agora tem sede de sangue
espancando,
matando,
andando de vermelho e de azul
provocando as gangues.
Poliana vai pelos becos
de East York, T-Dot:
Riverdale, Thorncliffe Park,
Blake Street e D-Block.
Resistência,
decadência urbana, graffiti,
tráfico e roubo armado.
Mas Poliana prossegue!
Se esfegando em michês viados
magros e oleosos,
em prostitutas e falsos gangsters
e mexicanos tatuados.
tudo por uma dose de junk.
seringas sujas,
colchões sujos
cachorros sarnetos
sarjetas, banheiros públicos,
vômito e AIDS.
Poliana:
a inocência deturpada!
lindas pupilas dilatadas,
branca pele,
charme e carisma em pessoa:
cafetinando garotos bichas
para velhos tarados
nas estações de metrô
por um papelote
de hard white.
ou brown sugar
ou uma garrafa de álcool.
cada noite em um quarto
de um "amigo" viciado
ou de um motel pulguento
mas sem jamais dormir.
Poliana fica de olhos abertos
e de dedos fechados,
apertados,
em volta do cabo da faca
(ou do gatilho da .44)
esfaqueando colegiais
por vingança e uns trocados...
posted by Mercedes |
21:18
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Junho 2, 2006
uma mente hiperativa
meu coração é um exército
de homens dedicados
cujo objetivo é tocar banjo
(os mais lindos arranjos)
para te encantar
homens dedicados a conquistar
o seu corpo delicado
meu coração é um pirata
disposto a te fazer fechar seus olhos
pra depois te roubar
(um beijo... e os trocados do seu bolso)
meu coração é um estrangeiro
procurando te encontrar
porém perdido no seu bairro
sem saber falar a sua linguagem
de amar
meu coração é uma mão com dedos rápidos
determinados a fazer cócegas
leves como pena de ganso
só para você liberar
aquela sua mais complexa
e alta
e deliciosa
e mais monumental gargalhada
(8° maravilha mundial)
posted by Mercedes |
17:16
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Junho 1, 2006
em geral
férias de verão, café da manhã sonolento, cerveja gelada, televisão de fim de noite, viagens de carro, bebedeiras em espeluncas sujas e baratas, drink de amarula gelado do B52, casaco de moleton, sobremesa de chocolate, tênis branco, cantar fora do tom, todos meus talentosos amigos, Santa Teresa, cheiro de canela, comer em drive-thru, cafézinho de beira de estrada, cerveja no estacionamento matando aula, camisetas brancas. cartas de amor, pensar em pessoas, música barulhenta, inventar pequenas danças, calça jeans, andar na chuva, andar pelas ruas, cheiro de cidade, cinza de cidade, fotografar e ir dormir.
posted by Mercedes |
10:23
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